sábado, 26 de dezembro de 2015

O amor que eu temo


Temo aquele amor vago, distraído
que morre, passageiro,
sem se saber por quê...
Temo o amor traiçoeiro e fingido
que mata por querer.
Mais temo, ainda, o amor que finda
sem ter-se dado por inteiro,
se for para ser assim,
prefiro morrer primeiro...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Fogo e lágrimas

(Desabafo desta poeta, ante a destruição pelo fogo do Museu da
  Língua Portuguesa-SP)


O fogo queima o monumento da cultura,
as lágrimas, o nosso rosto...
Tombam em chamas e cinzas nossas referências 
ensinadas e compreendidas.
Queimam as palavras, os nossos poetas e autores amados,
embora eternizados na intelectualidade absorvida.
Tombam desguardadas as torres culturais.
Tombamos, fragilizados, na vigilância dos nossos livros,
vigilância, se foi tanta, não é mais,
também arde perdida...
Choram ali, queimados, os imortais do saber.
Choremos com eles, em nós, vivos.
Choremos unidos na dor.
Choremos pela arte, ardendo, desfalecida!


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Quando sou intensa


     Sou intensa, quando saio do meu eu absoluto e egoísta e lanço um olhar atento, ao meu redor, na busca harmoniosa com o outro.
      Sou  intensa, quando não me deixo abater em conformismos e  me exponho ousada à luta
       Sou intensa, quando fico brava com as injustiças e me impulsiono irascível para combatê-las. 
      Sou intensa, quando o meu fervor se sobrepõe à minha descrença.
      Sou intensa, quando sei que posso minimizar a dor, recorrendo às minhas forças nascidas de um otimismo que exercito.
      Sou intensa, quando não nego os meus medos e aciono a minha coragem.  
      Sou intensa, quando erro e quando peço perdão. 
      Sou intensa, quando não retroajo no meu determinismo e nas minhas convicções.
     Sou intensa na minha humildade.
     Sou intensa nos meus sonhos: voo sempre bem alto e bem longe... Mas sou intensa quando pouso os meus pés na realidade que me espera.
     Sou intensa, quando tenho que convencer o irredutível. 
       Sou intensa, quando derrotada e vencida.
     Sou intensa, quando comemoro uma conquista, passeando minhas reflexões sobre as dificuldades em alcançá-la.
     Sou intensa, quando ferida e intensa quando curada.
      Sou intensa quando oro, quando agradeço, quando faço escolhas, quando me entrego e me doo com alma a alguém.
     Sou intensa em tudo a que me disponho, porque a superficialidade me afoga, é a profundidade que me aconchega.







Ponte florida sobre abismos



     Não há idade para a emoção afetiva, mas quantas pessoas vivem à beira de seus abismos, frios e inacessíveis, sem se permitir o amor. Trancafiadas em si mesmas, envelhecem por dentro, enquanto a vida em seus rostos clama viver. Réstia de luz que insiste passar sob seus olhos.
     O tempo escoa...  E a cada dia se faz menor, transcorrendo em direção contrária à letargia de quem não se permite amar. E permitir-se amar não é propor-se aventuras efêmeras que farão com que todos os relógios pareçam correr ainda mais vertiginosos. Também não é abraçar sonhos irrefreáveis e sem direção que podem desabar sobre rochas.
      É possível sonhar sentindo o chão sob os pés. É possível sonhar e consentir-se um amor bonito que bater à porta. A vida pode ser curta, mas não é se privando vivenciar um sentimento que ela há de parecer mais longa e prazerosa. Tão-pouco, não é percorrer os caminhos que faltam, dando lugar unicamente a esparsos amores, interrompidos ou malcomeçados.
      Sem desafiarmos limites e quebrarmos grilhões que nos aprisionam, roubaremos de nós a chance de vida.
      Permitir-se é erguer uma ponte florida sobre os abismos que cavamos ao nosso redor e experimentarmos ser felizes. Pode dar certo, pode valer a pena.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Infinito deserto

Deixaste-me passar, tão passageira.
Eu me mostrava, tu não me vias,
quando me vias, eu não estava inteira
e inteira tu não me sentias.


Tinhas-me ausente e eu tão perto,
tão perto, acenante e nua. 
Quanto deserto no nosso infinito,
quanto deserto na minha alma
e na tua...


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Encontros estrangeiros


Extrema minha alma uma delicadeza
que de longe vem, logo me alcança...
Banha-me em profunda e rara beleza,
veste-me suave, delicada e mansa.

Seus olhos hão de olhar-me vasculhantes,
a sondar-me a íris, ao me ter tão perto,
presos às minhas palavras, perscrutantes,
enquanto me ofereço exposta no meu deserto...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A maturidade



           O passar dos anos presenteia-nos com a maturidade, que é sempre sinônimo de lucidez, até nos permite sermos insensatos, vez ou outra, sem comprometer toda a boa bagagem que acumulamos na trajetória percorrida, porque a maturidade jamais dará longo abrigo à insensatez.           
           A maturidade nos traz uma segurança inexplicável em todos os atos que praticamos, mesmo aqueles que, mais tarde, possamos considerá-los precipitados, mas que teriam, sem dúvida, efeitos avassaladores, se os tivéssemos cometidos no arroubo da juventude. 
           A maturidade, quando chega, não faz alarde, contudo, é  perceptível nos detalhes dos nossos gestos, nas atitudes, na forma como nos dirigimos às pessoas, nas nossas solicitudes, no nosso olhar perscrutador, nos pequenos e grandes risos, mesmo aqueles disfarçados, brincando no vértice dos lábios. 
         A maturidade faz-nos otimistas de insofismáveis convicções, sem que pareçamos arrogantes e soberbos. Quando solicitados a intervir em questões conturbadas e ardilosas, ela nos emprestará argumentos naturalmente sábios. 
          Há dentro de nós, pessoas maduras, uma sensação de êxtase por termos chegado plenos à idade que nem todos alcançam, alguns por ter sido levados desta vida jovens demais, cumprindo os desígnios de Deus,  outros, porque a preguiça e a irresponsabilidade embotaram-lhes a mente, e ali, no limbo do crescimento, vagam na imaturidade. 
          A maturidade coloca uma bússola invisível em nossos passos e nos direciona com perfeita exatidão por onde seguirmos e um infalível relógio em nossos bolsos, que não nos permite demorar onde quer que seja, ou com quem  quer que seja, um segundo além do que a prudência determina, ao contrário, reveste nossos relacionamentos de clarividências e os torna mais saudáveis, sem possessões passionais, porque eleva a nossa autoestima e sacode o nosso amor-próprio ao nível justo da ponderação. 
          Percebe-se a maturidade em uma pessoa até no modo como ela se recolhe em sua dor...
         A maturidade  apura nossos gostos e nos faz seletivos, ao mesmo tempo, confere-nos profunda segurança em afirmarmos preferências e convicções, sem nos importarmos em impressionar uns ou contrariar e decepcionar outros, porque maturidade é, precisamente, liberdade de ser, com  amplitude e autossatisfação que compraz, irradia e inspira.

domingo, 30 de agosto de 2015

Névoa sedutora


Singro,  inebriada e errante,
oscilando o rumo do meu navegar...
Acena-me uma bruma fascinante,
confundindo a direção do meu olhar.
Mas não estou à deriva, só encantada,
não estou à deriva, só impregnada
pelo perfume desta névoa do mar...

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tudo passa


Tudo passa, é certo…
o fervor aos entes queridos,
o amor jurado
e prometido, no fulgor
do entusiasmo.
Tudo passa, no percurso da vida.
Mesmo os percalços,
e as dores sentidas,
o tempo ido os distrai.
Mesmo a saudade julgada
infinda, a cada dia se esvai
no pensamento...
Tudo se desfaz na efemeridade do segundo
e na velocidade do vento,
o que se pensa, o que se diz e o que se faz.
Tudo passa,
na vã eternidade do momento...

domingo, 2 de agosto de 2015

Só em pensamento


Nem tudo o que sinto eu expresso.
Retenho meu sentir mais intenso.
Algum sentimento rimo em verso,
mas por dentro guardo o que penso.

Palavras que se expõem ao desalento,
arrependem-se após a confissão,
melhor escrevê-las em pensamento,
para os que sabem ler o coração.

                               

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Jardim nos telhados

         Neste tempo do ecologicamente correto, onde privilegia-se o que não agride a natureza, preserva-se a qualidade de vida e o bem-estar da humanidade, como seria bom que se cultivassem mais jardins: jardins em escolas e em praças públicas, jardins nas calçadas, à beira-mar, enfim, jardins por toda parte.

        Com as construções a cada dia mais verticalizadas, nossas paisagens estão, inevitavelmente, cinzas e nevoentas. As árvores, antes agasalhando espaços, frondosas, que floresciam coloridas na primavera, quase as podíamos alcançar de nossas janelas, na infinitude dos prédios que apontam para o céu, desafiando a gravidade. Hoje, essas árvores não passam de arbustos encolhidos para  não comprometerem as fiações elétricas das grandes cidades. Respiramos pouco verde, e as flores já não nos saúdam, quando abrimos as nossas janelas, ou vemos outros edifícios ou nos deparamos apenas com telhados de casas, que ainda resistem, espremidas entre florestas de pedras, perfilando frias por ruas e avenidas.

         Fico imaginando, se pessoas que moram em casas passassem a cultivar jardins nos seus telhados. Abriríamos as nossas janelas para flores que nos sorririam, substituindo a paisagem de telhados limosos e sem vida.
       Jardim nos telhados nos pareceriam gigantescas cantoneiras a nos acionar todas as espécies de flores. Até pode ser uma ideia um tanto fantasiosa e inacessível ou inviável tecnicamente, na opinião abalizada de algum engenheiro, arquiteto ou paisagista, alegando que jardim nos telhados pode comprometer as estruturas das casas, mas o idealista apenas lança sua idéia, sem se preocupar em adequá-la à realidade, e igual aos sonhadores, apenas investe em suas viagens fantásticas e etéreas, avessas às formalidades, às convenções que ditam regras e padrões, simplesmente porque os sonhos não pedem permissão para se estabelecer...  Até que, por fim, surja um calculista que, aliando sua racionalidade à sensibilidade que não o tenha abandonado, consiga combinar sonho e idealismo à realidade e transformá-los num projeto possível. Daí, o que parecia inverossímil e utópico, fica ao alcance e acessível. E nós, os sonhadores e idealistas, deixaremos de ser olhados como visionários inúteis das vãs filosofias.
      Que jardins possam ser plantados e cultivados nos telhados, tanto por pessoas sensíveis ou sonhadoras quanto por aquelas que ainda queiram preservar a humanização das paisagens, quando abrirem suas janelas de par em par...

terça-feira, 7 de julho de 2015

Pessoas inteiras

      
      
         Sempre fui apreciadora de frutas, mas prefiro-as quando estão em seu tamanho original, não em pedaços, formando salada, porque, em pedaços, seus sabores se misturam, e eu me perco na essencialidade de cada um.
     Gosto mesmo é do que é inteiro, acima de tudo, gosto de pessoas inteiras. Mesmo refeitas, mas inteiras. Pessoas fragmentadas disseminam a inquietude, já que trazem consigo a insegurança que desassossega e embota raciocínios, fragiliza estruturas e faz fugir-nos o chão. É certo que, vez ou outra, alguns reveses nos fragmentam, mas cuidar-nos de nos recompor é um exercício que não podemos deixar de praticar, porque viver é também promovermos nossa reconstrução, a cada instante...
     Quando nos dispomos a um relacionamento afetivo, é imprescindível nos levarmos inteiros à pessoa que escolhemos para conviver. Da mesma forma, é de bom senso não permitirmos a chegada em nossas vidas de pessoas fragmentadas por dores trazidas de outros relacionamentos, com emoções malresolvidas que ainda estão lá, em seus pensamentos. É um risco que pode ser crucial, porque pessoas aos pedaços amam pela metade, se doam mais ou menos, já que a sua outra metade está em algum lugar que desconhecemos, fora do nosso alcance, à margem do nosso universo íntimo, não nos pertence, é estranho para nós...
     Que nossa autoestima nunca nos permita entregar-nos a pessoas que se deixaram desconstruir por desamores e rejeições. Pessoas divididas, repartidas estão sempre em estado de conflito com o passado e com o presente, e quem com elas convive culpa-se por não conseguir unificá-las ao momento atual. O que não é justo, porque quem não contribuiu com a sua ruptura, também não pode ser responsável por sua colagem, nem por encaixar o seu quebra-cabeças quem não misturou todas as suas peças. Alguém alcança esse grau de despojamento? Se construir o nosso eu é pessoal, requer horas reflexivas, também não podemos transferir para ninguém a remontagem dos nossos fragmentos. Fazer-nos a nossa própria reconstrução, quando estamos em frangalhos, já é uma árdua tarefa. Da mesma forma, é imprescindível evitarmos queimar etapas, pular os degraus que nos levam ao alcance de nós mesmos. E isso pode levar algum tempo, tempo que tem que ser entendido, respeitado, até que nos levantemos colados e depois inteiros, para caminharmos, também inteiros, na direção do outro.
     É fundamental que só pessoas inteiras se disponham a caminhar juntas, é mais saudável, muito mais justo... Quando inteira, a pessoa possui o brilho intenso da positividade e da harmonia, brilho que também nos alcança e clareia.
     Estarmos inteiros na vida de alguém, uma coisa é certa, seremos, pelo menos, boas companhias.




quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sonhar-te

Por que me punes assim,
fugindo se tanto me queres?
Querendo-me e foges de mim,
punindo-me a ti mesmo feres.

Quase morro de tanto sonhar-te.
Quase morres por não ter o meu bem.
Não mates meu sonho de amar-te,
se o teu sonho é amar-me também.

domingo, 14 de junho de 2015

Sem viver

Não quero chorar eternamente
este pranto que me desatina doído.
Até quando vou me fingir ausente
de viver o que eu espero ter vivido?

Se vou te chamar tenho medo
e o teu nome sequer balbucio,
ele é o meu  maior segredo,
que somente ao silêncio  confio...

Se me queres

Sou uma concha a te esperar em vão,
no areal imenso do mar.
Como  eu me quisera em tuas mãos,
no teu peito, no teu olhar...
Eu te diria que nem a dor dessa espera
levou dos meus versos a esperança,
se de esperar eu me fizera...

Nas tuas mãos, todo sonho me alcança.
Acolhe-me, se me queres em tuas mãos,
não quero mais a espera de sonhar.
Acolhe-me, se me queres em tuas mãos,
se não me queres, devolva-me para o mar,
porque no mar sou estrela no chão...







domingo, 7 de junho de 2015

Olhar distante


Enganas se pensas que me vês
quando me olhas em pensamento.
Olhas-me apenas, sem saber
o que guardo fundo, aqui dentro.

Distante, estou difusa a te distrair,
onde sou sal, onde sou mar...
Distante, estou confusa e a confundir
o cristal do teu olhar.

Olhas-me somente, sem conhecer
as profundezas do meu sentir.
Olhas ausente o lago do meu ser,
mas distante, nunca vou me refletir...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Retomando a vida

  "O seu coração não é estrada para passeio de muitos. O seu coração é lugar que
  só fica quem faz por merecer".   Charlie Chaplin
                                                                                                 

            Como avaliar, de imediato, o merecimento de quem abrigamos no coração, se o ser humano, não raro, é dado a encantamentos, a arroubos sentimentais? Basta que nos dirija uma frase bonita, um olhar melodioso que vasculha nossos abissais, um gesto que encanta e sensibiliza. Como não enfurnar essa pessoa nos confins do nosso coração, com a velocidade do raio? Como não sequestrá-la com os braços da alma, com a nossa avidez de doçura? Como não detê-la ao nosso redor vazio, num mundo onde pessoas delicadas estão sumidas e banidas? Pessoas duras com elas mesmas e com o outro, que podem até ter sido mansas e benignas um dia, mas que a aridez das transformações as contagiou? Pessoas com o amargor e o pessimismo a norteá-las por todos os seus pontos cardeais e que vêm tropeçar em nós, por tantas vezes, tomando atalho em nossos caminhos e, mesmo sem nenhuma referência e credencial, vão arrombando os nossos corações. Até nos apercebermos, quanto estrago nos terão causado, e com a nossa plácida aquiescência... Se antes nos dispuséssemos a avaliar cada pessoa que abrigamos no coração, se a submetêssemos às nossas precauções sob um detector de mentiras afetivas que as impedisse de causar-nos as feridas profundas e demoradas... Mas o coração da gente é, às vezes, meio açambarcador, vai acolhendo, acolhendo, só muito mais tarde, já com as batidas trêmulas e penosas, verga-se à triagem tardia...
           Quem é sensível demais tem o coração de portas escancaradas que, tal como pote de mel, atrai abelhinhas inofensivas e borboletas coloridas, mas também marimbondos implacáveis. Quem tem bom coração é mesmo assim, por ele entra um, entra outro e, sem se dar conta, entra gente que não merece.
           Promovermos a varredura de pessoas que se instalaram dentro de nós feito erva-daninha, que dia a dia nos envelhecem e arruínam, até pode doer-nos um pouco, porque à dor também nos acostumamos, mas é necessário, para que retomemos a vida. Aí, recorremos novamente à nossa autoestima, ao nosso amor-próprio, para ajudar-nos a "pegar na vassoura".

             
        

domingo, 17 de maio de 2015

Ir ou ficar?


Às vezes quero ficar,
mas se o  tempo parece lento,
sou eu querendo voar,
voando no meu pensamento.

Às vezes sou só rodopio,
girando sem nunca correr,
girando minha sorte num fio,
girando o meu bem-querer.

Se fico querendo voar,
ficando, se quero ir,
finjo que estou sem ficar,
fingindo que estou aqui...

sábado, 16 de maio de 2015

Gosto de estar só


       Gosto de estar só, vez ou outra... Não que eu me baste, egoisticamente, ou por me sentir incapaz de exercitar a convivência com o ser humano, mas pela necessidade ímpar de mergulhar no silêncio ao redor, e dentro de mim, sobretudo para observar-me, com o cuidado de quem observa uma borboleta sugando o néctar da flor, ambas envolvidas, comprometidas com o melhor que possam extrair, ambas resguardando a seiva que as sustente verdadeiramente. 
       Gosto de estar só para construir uma reflexão isenta e desapegada de mim, para ouvir melhor o que digo, sem emitir uma única palavra, como num concerto de piano, onde só o acorde das notas, ora aveludado ora tangente, trouxesse ao palco o seu compositor, revelando-o... E nessa profunda observação despojada do meu interior, eu me surpreendesse com as minhas frágeis certezas.
       Gosto de estar só para polir-me, lapidar-me, para repassar todas as imagens ilusórias que atiçam minhas tolas vaidades, e alertar-me para a  confusão do brilho ardiloso, passageiro, que acende ambições arenosas, suga e contamina.
       Gosto de estar só para perceber-me despida e exposta, ingênua e perigosamente crédula.
       Gosto de estar só, porque é assim que me dou conta do momento inadiável de pousar com prudência e segurança as minhas asas, que, por tantas vezes, deixam-me aturdida em voos aventurados.
        Gosto de estar só para enxergar o cerne de mim, mas sei que, para isso, tenho que me predispor transparente. 
        Gosto de estar só, mas acima de tudo preciso, às vezes, estar só, porque somente eu posso alcançar-me tão fundo e ceder-me humilde e isenta às reflexões que me proponho, porque ninguém pode superar-me no crivo a que me dobro de mim mesma, com igual completude de conhecimento... 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Paris em mim


      Paris se veste, aos poucos, de primavera, que, lenta e suavemente, vai colorindo os canteiros com flores sorridentes e verdejando árvores aqui e ali.  Árvores que, mesmo nuas e pálidas, eram belas esculturas esculpidas pelas mãos anônimas da natureza. Agora, vestidas, são pinturas impressionistas distraídas na paisagem. 
     Por onde caminho, seguem-me o vulto, o passado e a história. Estou impregnada da formosura que suave esbarra em mim. Adentro esse quadro ousadamente. Imiscuo-me nessa moldura que outrora ou em alguma vida me esperava e a quem eu tanto queria. Num instante, somos a simbiose da chegada e da partida...   Não temos muito tempo e a urgência me consome: o tempo fluídico dos amantes. Sou a ansiedade tocando o belo. Meus olhos anotam, minha alma fotografa e eu flutuo... De onde vem esta emoção que me estremece em soluços inaudíveis, ou seriam sussurros dos personagens que me acompanham? 
     O Sena é uma avenida imensa de águas cristalinas. Perspicaz, o vento mergulha velozmente em suas profundezas e emerge lépido e provocante, borrifando os meus cabelos e impregnando-me do perfume das possíveis verbenas-rosas, incrustadas no muro que escolta sua margem. Posso escutar o som dos pássaros misturados ao vozerio dos passantes, sem prescindir do esplendor que me rodeia.       Dos paralelepípedos pequeninos e mágicos de Montmartre à suntuosidade proposital de Versalhes, sigo absurdamente em êxtase, subindo e descendo escadarias, alçando torres, ajoelhada sob vitrais que se movem na minha imaginação e me entrelaçam.  
     O tempo escoa implacavelmente zombeteiro, digladiando com vontades e compromissos. Mas já não importa, e escolho ficar.
     Num instante, sou parte desse mosaico multicor e detenho-me no esboço dos vitrais, consentida, permitida, desenhada...

terça-feira, 3 de março de 2015

O rastro purpúreo da solidariedade

         
    Há ainda espaço para a solidariedade, enquanto os seres apenas se entreolham e pasmam? Não quero tecer sobre o egoísmo, mas sobre a solidariedade esquecida, porque  o egoísmo aflora com facilidade, é para os detalhes da amplitude da solidariedade que ergo a minha pretensão. E há ainda dentro de mim, igualmente, algum resquício da ternura não estremecida, não violada que me acalente as palavras grávidas de atitudes? Que me empreste suas asas uma borboleta volitante, mensageira, e me alce com ela rumo ao outro, também sem violentá-lo, sem invadi-lo. Pousaríamos no seu olhar, ao redor da natureza que clama, mergulharíamos na sua misericórdia, porque sem ela tudo fenece, tudo se torna árido e os animais gritam, as águas enlodam sem reflexo, os seres frágeis se vergam abandonados, esquecidos. Não seria necessário nos determos tanto, bastaríamos a sintonia por algum tempo em junção, comungados.
       É a reflexão que tudo move e eterniza, que entrelaça mãos feito galhos erguidos para o céu. Embora, ao mesmo tempo, uma águia endoidecida dentro de mim se debata, prestes a explodir comigo dos  penhascos da tentação, da indolência e do desânimo, é nas asas da borboleta bailarina que o outro e eu pegaríamos carona, experimentando a simplicidade 
das flores e a maciez do mel que as farta, que as sacia. É com ela que daríamos acorde aos gestos e à consciência livre, pacificada. Mas a águia não se desprende, ronda com o seu bico ferino, abútreo, enquanto a frágil borboleta  apenas acena o seu fascinante bailado com recheio de néctar e vida.
     Mesmo que a águia, inquieta e traiçoeira, nos abata com o seu voo soberbo e veloz, do mais alto rochedo ou do roseiral mais florido, a borboleta dançarina deixará escorrer a seiva colhida no seu rastro purpúreo...


              

Silencioso adeus


Queria dizer-lhe adeus,
nunca mais!
Mas não consigo, não sou capaz.
E para que despedida,
num  tempo que se perdeu,
se já não somos nós nessa partida,
se já estamos sós você e eu?


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tudo a seu tempo


A espera nem sempre é agonia
e ansiedade.
Quando há certeza, ela é calmaria,
não velocidade.
E nada ao tempo antecede
sem a permissividade do destino,
nem o retrocede a vã vontade,
ou os apelos do desatino...

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Beijar-te com os olhos

Com os olhos beijo tua boca,
sem sequer nela tocar.
Posso até parecer louca,
nesse beijo invisível e ligeiro, 
mas consigo te beijar
e te beijo o tempo inteiro,
sem nos teus lábios pousar...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Rosa

Rosa de fulgor escarlate
indiferente e tão bela!
Ignoras quando te chamaste
e o apelo de quem te espera.

Levas em tuas andanças

tantos que sonham em querer-te.
Quem não morreu de esperança,
dia a dia, sem nunca ter-te?

Quem de amar-te enlouquecido

fez o tempo retrocedido, 
tão-somente para ver-te?