sábado, 15 de junho de 2013

Portas e chaves

Tenho tantas portas
e de chaves tão incertas.
Portas fechadas,
outras abertas...
Qual chave abre
a minha porta
fechada?
Qual fecha
 a minha porta aberta?

POESIAndo

Faço versos
me peregrinando
por dentro,
quando alcanço
o meu fundo,
ando na poesia:
poesiando...

Para sempre

Amar é descontínuo,
quando é acaso,
mas se for destino,
proposital,
há que ser uma história
sem ponto final.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Despedida na confeitaria (crônica)


     Como supor um fim de namoro na confeitaria? Combinar doces com amargor, desolados e confeiteiros misturados?
    Quanta ironia no cenário escolhido. Quanta estranheza nos olhos que se olham sem ser ver por inteiro. Quanta desavença a um tempo estornada e exposta, abraçada aos que partem lado a lado e distantes.

    No fundo, não há consolo, quando se vislumbram o irremediável e o óbvio, desabando para o inexorável. Ainda queria se agarrar a uma  ilusória  possibilidade,  mas migalhas não alimentam, só fragilizam e esgotam.  E tudo o que  inventasse agora, para  detê-los, nada mais seria do que o suplício adiado.
       Quisera chorar, ao supor que chorar a  confortasse. Mas a lágrima não veio para se despedir, estagnou implodida na garganta, observando todos os seus estragos por dentro. E quando ela não escorre, os lábios se vergam feito riso, mas é só o trejeito da dor, reflexo da alma em trapos.
   Engasgada, meio viva,  meio morta, suas mãos abandonam a mesa, já sem guardanapos. Leva-os todos no fundo da bolsa, amassados e com alguns poemas no meio, todos ininteligíveis, inacabados e desconexos, porque a inspiração também não veio para se despedir, só o vazio infértil de rompimento e perda.
     Levantam-se, quase ao mesmo instante. Um leve roçar de ombros, descuidadamente, ao acaso, entre passos tropeçados.  Lá fora,  a chuva  chora por ela, como se zombasse da sua incapacidade de chorar. E o vento, desalinhando seus cabelos, teima em esconder a palidez que a revela.
       Dispersam-se, sob um silêncio que faz doer suas  entranhas. Nenhuma lágrima, nenhum argumento, nenhum apelo. Melhor assim - pensou. Não se retém o que na verdade nunca se teve.
     Sem beijos, sem risos furtivos, sem clamores contidos, sem olhares sorrateiros, e sem vontade de ir embora.

     A despedida ficou do outro lado da rua...

Excesso de liberdade (crônica)

                                              
    Liberdade. Já lutou-se tanto por ela. Quantas vidas confrontadas e ceifadas em seu nome, quantos heróis mortos por empunharem suas lanças e espadas em batalhas que escreveram histórias. Todavia, eis que ando profundamente assustada com o excesso de liberdade no mundo de hoje. Liberdade que já não se conquista. É oferecida e consentida, antes mesmo de os jovens chegarem à adolescência. Porque há um apelo velado dos meios de comunicação que chegam avassaladores às escolas e a elas também lhes ditam O RUMO DA LIBERDADE. Ou se dá liberdade ou se perde a harmonia, e esta se vê  em conflito nos lares, entre o ser e não ser shakespeariano na orientação dos filhos.
   As crianças já não brincam  nem os jovens namoram nos românticos e ingênuos bailinhos, não possuem estantes, porque não leem livros, que hoje são facilmente resumidos pelo computador que lhes dão um mundo ilimitado de liberdade via internet, onde copiam pesquisas prontas, fazem amizade insípida e namoram virtual e perigosamente.
    Transformaram-se em crianças-zumbis: olhos fundos, ou muito magras ou quase obesas, resultado de noites maldormidas, consumidas pelo necessário e maldito computador. Pobres pais. Impossível competir com esse gigante maravilhoso e a um só tempo traiçoeiro, porque o demônio nem sempre é feio. Ele tem o poder de se vestir de galã.
    Certo dia, ouvi da filhinha de onze anos de uma amiga minha, reclamando com ela: "Mãe, nenhuma coleguinha quer brincar comigo, estão todas no computador. Será que nasci em época errada?"
     Lembro-me que na minha adolescência, e isso já vai mais da metade de um século, eu também me sentia estranha no meu tempo e no mundo. Gostava de ficar em casa, lendo e escrevendo, enquanto a maioria preferia sair para dançar. A diferença era que tínhamos uma liberdade conquistada, ao contrário desta de hoje, exposta como num self-service segredando: "Sirva-se". Certamente há um ônus nessa exposição a curto prazo e se repercutirá nas costas dos pais e muito mais na vida caleidoscópica dos nossos jovens.
     Também acho que nasci numa época errada, mas a de hoje causa-me estranheza, quando não me deixa perplexa. Contudo descobri, vivendo, que há sempre algum propósito para a lucidez que se levanta. Daí que a responsabilidade passa a ser minha de operar mudanças necessárias que me confortem, com as quais eu me sintonize, senão, viver seria por demais enfadonho. Elas me impedirão de escorregar nesse funil, onde tantos se espremem para não ficarem diferentes, só para fingir que entendem e aceitam o sistema.
      A responsabilidade passa a ser minha de fazer ouvir o meu pequeno grito, mesmo que eu me descubra a heroína às avessas da liberdade.



O silêncio da felicidade (crônica)

               
      Disse-me certa vez um amigo, desses raros, com quem conversamos como se conversássemos com nós mesmos: "Seja discreta na sua alegria e silencie ao máximo a sua felicidade, os ouvidos e a percepção da inveja são mais atentos do que se possa imaginar, quando ela constatar o seu sorriso fácil, aí já será tarde, a felicidade terá tomado o seu assento e se instalado no lugar que lhe foi destinado e no tempo que tem que ser, no tempo da própria vida... "
   Não gostaria de viver muitos anos sem ter vivido intensamente. Quero sempre olhar o amanhecer e constatar que a minha construção pessoal foi consciente, que contribuí permissivamente para ser o que sou. Que fui menos teimosa ou arrogante nos meus propósitos, mas muito mais obstinada. Saudei as minhas vitórias com celebrações discretas, respeitando o adversário, porque também experimentei a derrota um dia, que me fez aprender a perder, o que não significa ter-me acomodado. A canção que entoei nos dias felizes ecoaram nos meus momentos de perdas. Quando estive fragmentada, recolhendo os meu pedaços, entendi que a felicidade requer atenção, é necessário ser feliz com reservas. Faz-me lembrar a roda gigante do meu tempo de criança, naqueles parques coloridos e agitados de músicas e luzes, como se personalizasse a felicidade. A roda girava, girava, ao som da alegria. De repente, ela parava lá em cima, e um calafrio assustador e implacável fazia balançar nos ares as nossas pernas miúdas, sem chão. As estrelas pareciam mais perto, mas a solidez, cada vez mais distante...
   A felicidade pode ser euforia e calafrios, como uma roda gigante. Seremos sempre pequenos e crianças para entendermos os propósitos divinos, tão intraduzíveis quanto inevitáveis. E nunca estaremos atentos suficientemente para não sermos surpreendidos.
   Mas sei, também, que na noite há sempre uma estrela, mesmo invisível, porque acredito que ela está lá...
  Sonhadora que sou
  recolho a minha estrela
  e a levo para dormir,
  mas a empresto ao céu,
  quando o céu me pedir...