sábado, 6 de dezembro de 2014

Sua presa


 Sou sua presa grudada nessa teia,
tecida para prender-me eternamente,
mas tão frio o seu olhar me passeia,
com desdém inútil de quem consente.
Se o que é mordaz é também prisioneiro,
quando nega o que é tão evidente,
só confirma e o confessa o tempo inteiro...



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Onde estão os jardineiros?

                                              
     

     Se você é um postulante a jardineiro, saiba que essa intenção requer dom, advindo da sutileza, com horas conciliadoras entre a paciência e a leveza, exalando alma totalmente aflorada.
    Todavia, se você não possui afinidades com plantas, não ouse impor-lhes a sua presença, passe de largo... Não force os seus limites para não ser invasivo, porque plantas, muito mais do que água, precisam de quem as perceba, de presença benfazeja. Do contrário, elas se sentirão preteridas, assoladas e, inexoravelmente, murchariam de tédio. E você seria resumido a um “mão imprestável de plantas” ou a um “mão ruim de plantas” o que, convenhamos, não é nada lisonjeiro.
     Plantas não se deixam enganar, possuem percepção aguçada do verdadeiro desprendimento humano, portanto, somente elas têm autoridade para alçá-lo ao posto de jardineiro, se vicejam e florescem por suas mãos...
    Jamais ouse pegar um regador para aguar plantas, sem antes predispor-se a essa tarefa, sem antes preparar-se mental e espiritualmente. Evoque suas melhores lembranças, cantarole manso e baixinho, de preferência as canções de ninar que ouvimos na infância.  
    Estabeleça com elas um ritual dulcificado e sereno, um monólogo sussurrante e acalentador, até que elas  sintonizem com suas boas intenções. Suavize-se, purifique-se: você está adentrando o espaço sagrado de seres que se comunicam por energia...
    Penso que é  absolutamente impossível um ser humano conseguir ser rude, inflexível e soberbo, após passar alguns instantes em contato com uma planta... Nenhum dirigente de nação ousaria promover um conflito mundial, nenhuma corte jurídica decretaria uma condenação de morte, nenhuma atrocidade seria cometida, nem se quebraria uma promessa. Nenhuma dívida seria executada, nenhum sorriso seria contido e nenhum temor sobressaltaria corações. Todos os braços se ergueriam na direção de outros braços, em abraços que se encontram, se comungam e se laçam.     

   
    Os jardins são muitos, mas é da falta de convictos jardineiros que as plantas andam ressentidas...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Fotografia de uma saudade


Sinto ainda o perfume
de tantos anos que já se vão,
e só a saudade resume agora.
Retenho na imaginação
aquelas ternas horas.
Elas me pareciam tão corridas,
naqueles tempos de idos dias,
mas eu as seguro nas minhas mãos,
como uma fotografia...
 
 
 
 
 

sábado, 1 de novembro de 2014

Grades no sentimento

Por que há coração que disfarça
o que no fundo sente
e se faz prisioneiro do sentimento?
Por que tanta farsa descontente
e o tempo inteiro de sofrimento,
com grades, com prisão? 
Se amor é asas ao vento,
se amor é libertação...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A ti que me inspiras


Dou-me inteira a ti, alma e pensamento,
que hora são só teus.
Dou-te em consentimento
o meu corpo, e ainda levas junto
o coração...
Dou-te todos os meus versos,
os que rimam, e os que não.
Dou-te convicta, e mesmo incerta,
os devaneios, por onde passeiam
a minha inspiração,
a minha inspiração de poeta...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O perfume e o sabor que os tempos têm


      Gosto de caminhar quando o sol se põe, tenho a ousadia compartilhada de que a brisa se espreguiça e vem passear de mãos dadas comigo. Brisa cúmplice, desobrigada com tempo, razões ou amarras.
      Lá vamos nós: ela fazendo-se lenta, para acompanhar os meus passos, eu equilibrando-me trôpega, para não desabar do seu ritmo. Sinto o seu sopro nos meus ombros que me alenta e refaz, como se me desse asas. O mesmo sopro que me traz o perfume e o sabor dos tempos.
        E vejo a menina correndo, cabelos tão lisos e loiros, soltos ao vento, subindo ladeiras, esgueirando-se por becos vizinhos, brincando de esconde-esconde, ao lado de uma criançada que grita e saltita, movida por uma felicidade sem fim e tão funda, que chega a doer as entranhas. Esse tempo tem o perfume de terra molhada e o sabor de baunilha.
        Caminhar com a brisa me parece tão hipnótico, que  já não sinto os meus pés, certamente devo estar voando. Mas para que eu haveria de querer pés, se é o tempo em curva que quero alcançar? Agora, ouço uma música suave e danço quase sem perceber. Vejo-me sonhando com possibilidades inventadas e traduzidas só para mim, todas registradas em um diário que traz na capa o desenho de uma jovem, sentada em uma cadeira de balanço, na varanda, rodeada por lindo jardim florido. Pendente entre as páginas do diário, um pequenino cadeado dourado, com chave... Tão pequenino para guardar tantos segredos do coração. Esse tempo tem perfume de azaleias e o sabor de pitangas vermelhas.
        A brisa se faz mais rápida para me apontar as horas num relógio imperioso e indiferente, relógio que marca responsabilidades, trabalho e compromissos que parecem infindáveis, relógio que se agiganta na parede branca, enquanto o tempo, doidamente, se encolhe e me deixa zonza entre a correria sufocante do transitar de carros, que nunca param, só quando a madrugada os silencia, observada pelas estrelas... Esse tempo tem o perfume do mar, sob nuvens magentas agasalhando o sol, e o sabor de ameixas doces.
         Peço a brisa que se detenha um pouco. Olho ao redor e, por onde caminho, percebo árvores que me espraiam os seus galhos, como se me abraçassem, estendendo-me algumas frutas. Quem as plantou teria escolhido, aleatoriamente, o seu cultivo?
         Nesse instante, a brisa, aliada, traz-me o perfume dos pinhos, abençoados pela clorofila teimosa. Ela me responde com o sabor duradouro de hortelã, que se prolonga na alma... 
       E reconheço, emocionada, o meu tempo de agora, o tempo justo da colheita.
 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Frágil esperança

Como podes encantar e fugir?
Como podes fingir que não encantas?
Só me deixas tuas névoas aqui
e a frágil esperança tanta.

Não te alcanço se somes no espaço,
entre brumas escondes de mim,
os versos e os poemas que faço
seguem os teus rastros sem fim...


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Asas escondidas


Tenho um sonho ousado
que espera,  
por alma jamais pressentida,
no voo que tanto eu quisera,
pousando onde eu queria,
com as minhas asas escondidas,
emplumadas em mil fantasias,
volitantes, sonsas e fingidas...

sábado, 13 de setembro de 2014

Motivo para sorrir

Há sorriso distraído e breve
que mal se nota, mal se percebe.
Vem de esperança tão pouca e leve
e num lampejo na boca esvanece...

Se nunca há razão para o sorriso,
sorria, sem mesmo um motivo,
pois se a vida não é paraíso,
sorria pela bênção de estar vivo!


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Sintonia



O que surge na alma
e por dentro ecoa,
feito brisa leve, leve e fria,
passeando ao vento,
distraída e à toa,
é tanto sintonia
quanto pressentimento.

As frases se fundem
ao pensamento e se entrelaçam.
E tão íntimos se confundem
e tão unidos se abraçam,
como uma reza e uma crença.

Aqui e ali, e a todo momento,
são iguais, sem diferença,
são o mesmo sentimento...


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Encoberta

Neste dia morno, sol com preguiça,
traz-me o vento o gosto,
de uma lembrança triste,
atiça a saudade que ainda insiste
e como um beijo sopra no meu rosto.
Essa névoa no céu amanhecendo,
na minha alma disfarça o que minto
e teimo viver escondendo,
encobrindo o que na verdade sinto... 









Cumplicidade


O meu amor tem o aconchego
de um ninho,
o calor do apego, a sintonia
e tudo é manso,
tudo é mansinho...
Tem o requinte do toque, 
a magia,
o encontro no cúmplice brinde
e o néctar de um raro vinho...













terça-feira, 22 de julho de 2014

Tão perto

Não tema a noite
que desce sua cortina,
turva sonhos e os põe de lado,
pois todo o açoite é breve e a dor amofina
só no tempo certo, só no tempo dado.


Corre a água da fonte cristalina,
deslizando sobre o lodo encoberto,
tão logo há de despir essa neblina,
tão logo o longe estará tão perto...



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Graças



Desta vida que Deus me abençoa
com olhos sãos e tão firmes passos,
a cascata que no meu ouvido ecoa
e as flores que colho nos meus braços.

Deu-me luz que sempre me alumia,
tanta fé, que se me curva em prece,
me levanta, me apruma e me guia,
em fervor que nunca esmorece...


(obrigada, meu Deus!)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nave sonhadora


Velejo pelo sonho que me espera,
grudada ao leme sonhadora.
Trago o sonho que eu quisera
e busco o sonho que se fora.


Se é aventura que me proponho,
se é loucura ou se  é sonho,
vou  inteira nesta nave,
vou inteira onde me ponho.
Nada me detém, nada me trave,
quando navego atrás de um sonho...












 

A luz dos livros

                         As pessoas quando têm brilho não passam, deixam o seu rastro de luz em nós ou em algum lugar. Assim são os bons livros. Suas páginas nos extasiam como borboletas endoidecidas no espaço, subindo e bailando, impregnando de fantasia e cores os olhos de quem as observa. Sim, há pessoas que não passam, há livros que não passam, porque nos deixam sua beleza essencial. E a beleza essencial não é transitória, é raiz que nos finca na alma. Não tenho mais comigo muitas pessoas que amei e se foram, deixaram-me, contudo, a sua luz. Também não tenho ao meu lado, ao alcance da minha saudade, alguns livros que também amei, ou porque os emprestei e não retornaram, mas com a minha aquiescência, ou  porque os doei...
              Com o passar dos anos, à chegada da maturidade, vamos nos libertando dos apegos materiais ou afetivos, aqueles que nos escravizam, que nos fazem sentir donos e possuidor de algo ou de alguém.  O envolvimento emocional com os livros me parece até maior, pois somos tomados por um apego tríplice: material, mental e espiritual-afetivo e, por isso, bem mais difícil de nos desapegarmos. Similarmente, no entanto, a maturidade também nos ensina o despojamento, que devemos passar adiante, e sempre, o condutor, a fonte daquilo que nos faz melhor, nos faz crescer. Fico imensuravelmente feliz, vendo os livros que eram meus contribuindo para que alguém  possa abrir as portas de sua espiritualidade e conhecimento, da mesma forma como fez comigo um dia. O importante é o que assimilei, o que contribuiu para a minha formação como ser humano, e está dentro de mim feito raiz. Guardar os livros só para nós, apegar-nos a eles como a uma teia, é privar alguém de experimentar uma riqueza que pode, e deve, ser partilhada. 
               Que voem de nós os livros, que voem feito borboletas bailarinas e pousem em  infinitas veredas sedentas do saber, e ali finquem também os seus ensinamentos, a sua luz, essa é para sempre!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Renascer



Não quero esta flor,
desbotada de amargura,
sem viço, sem frescor,
no torpor da pedra escura.


Quero o sol e o vento,
o néctar na úmida roseira,
cheia de vicejo e alento,
nas entranhas da floreira.


Se já fui quase morrer,
misturada às heras do muro,
quero vida, quero viver.
Do escuro, renasço flor,
pois só flor eu quisera ser...













sexta-feira, 6 de junho de 2014

Por querer-te




Quero-te tanto e não posso,
nem posso dar-te o que queres.
Nada temos, nada é nosso,
o que te magoa me fere.

 
Florália sem nunca florir,
existindo sem nunca viver,
querendo o calado sentir,
querendo o que não pode ter.
 
 
Por querer-te este amor sem fim,
por querer-te me perco e disperso,
por querer-te me perco de mim,
soluçando este amor nos meus versos.

 
Soluçante sou tua poeta,
sou tua poeta errante...



terça-feira, 3 de junho de 2014

Vontades secretas



O que há por trás daquelas montanhas
que a minha vista não alcança?
Haverá vida maior e tamanha
que a minha não conheceu?
Haverá vida que incendeia
a deserta esperança que de mim se escondeu,
ou o sonho que não vivi?
Aquela que não sufoca nem freia
vontades secretas e o riso que não sorri?

terça-feira, 29 de abril de 2014

Todas as luas

Quando criança pequenina,
saltitante no meio da rua,
ingênua, lépida e franzina,
eu queria brincar na lua.


Logo, a mocidade se insinua
à menina tonta e cantante,
agora errante, solta e nua,
sonha dormir com a lua.


Hoje, na idade que amadurece,
peço à lua que cúmplice aquiesce,
brincadeiras e sonhos antigos.
Do céu radiante ela desce,
se aconchega e dorme comigo...




segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cais e bolhas

                                       
       Os sentimentos são mensageiros do acaso ou da predestinação? Como ficar impassível diante dos olhares que nos conduzem à sedução arenosa, distinguindo tão-somente aqueles que nos captam a alma e nos entrelaçam sem teias? Como perscrutar as sutis diferenças entre os nós e os laços, sem cairmos nos ardis, se o embevecimento nos distrai?
      Há sentimentos que nascem aos poucos, assemelham-se a uma construção: trabalha-se a base, depois, tijolo por tijolo, portas e janelas para se abrirem ao ir e vir espontâneo, por fim, o teto, a cobertura que acolhe e protege do sol causticante, das intempéries e dos dias frios: são como cais, um porto seguro.
      Mas há sentimentos que nascem feito bolhas de sabão e, ao menor sopro, assomam-se cristalinas. Iridescentes, envolvem e levantam aos ares a uma viagem de infinitos horizontes possíveis. Assim como as translúcidas bolhas, não se sustentam aos atritos das planícies, das montanhas escamosas, nem da eventual ventania. Logo se encolhem. Sua íris, antes fulgorosa, cintilante, explode sobre os píncaros a que se elevou, desnorteada de êxtase.
       Tombam cabisbaixos os amantes e suas estruturas lânguidas, assistindo ao ruir de seus castelos fantasiosos.
        Enquanto o barco desliza manso e sereno ao seu porto, as bolhas multicoloridas sobrevoam velozes, rumo a lugar nenhum, alucinadamente, sem velas içadas.
         Suas âncoras são as alturas, seu destino, a traiçoeira direção dos ventos... 

terça-feira, 8 de abril de 2014

De volta



Devolva-me.
Traz-me de volta
ao que me resta,
logo serei inteira
a essa luz que arde
por entre frestas...
Cansei-me da metade
em desalento, prisioneira.
Solte-me ao vento,
feito poeira e pó.
Refaço-me no ar.
À minha maneira, 
sei viver só. 
Sou pássaro,
sei voar...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Hábitos e manias

           Não sei quando começaram os meus hábitos, alguns penso que os conservo desde a tenra idade, outros, provavelmente, os tenha adquirido ao longo da vida. Hábitos são comportamentos parentes das manias e que, com o passar dos anos, arraigam-se em nós feito musgo à pedra. Num mergulho profundo e isento de mim, estou convicta de que adquiri mais hábitos do que manias, pois não contabilizei perdas ou afastamento de afetividades vitimadas por minhas manias, ao contrário, muito mais as tenho arrebanhado por meus hábitos.
Há aquelas manias  e hábitos que modificam tanto e a tal ponto o modo de viver de alguns, confrontados com o dito normal, que levam muitos aos consultórios psicológicos, para se livrar deles ou ter com eles uma convivência harmoniosa, e, de preferência, não interfiram demasiadamente na vida de quem quer que seja. Nunca passei por nenhuma análise, longe de desdenhá-la, contudo, e muito mais por temer ouvir aquilo que pretensiosamente já soubesse ou ousasse supor.
 Algumas manias tornam-se tão incorporadas à personalidade, que nem sempre é possível se dar conta, muitas vezes, o alerta de amigos é imprescindível, assim como a aquiescência em confirmá-las e a coragem para superá-las.
 Embora com tanta similaridade, hábitos e manias podem tornar pessoas especialmente interessantes ou exaustivamente chatas. Estão excluídas do rol dos chatos pessoas que têm o hábito de ligar para saber se você está bem, se trancou a porta, antes dormir, se precisa de alguma coisa, que enviam flores ou  cartão no seu aniversário, que trazem, na ponta da língua, uma salvadora receita caseira,  para curar-lhe daquela enxaqueca que azeda e entorpece o seu dia, e jamais perguntam se a causa é afetiva, aflitiva ou por excesso de trabalho, simplesmente porque são pessoas que possuem o requintado hábito de serem delicadas, discretas e cuidadosas. Não diria o mesmo àquelas com mania de perguntar tudo, desde o nome do perfume que está usando, até para onde você pretende viajar nas férias, e, se já tiver retornado, o endereço do hotel em que se hospedou, com a desculpa de querer apenas uma referência, caso escolha o mesmo lugar para passear.
 O certo é que se temos amigos com manias que dificultam nos relacionarmos com eles, mas os amamos, apesar de tudo, há que se ter paciência e tolerância; uma boa pitada de bom humor também ajuda, consideravelmente.
 Concluo que a diferença entre hábitos e manias não se atém exclusivamente à semântica, mas, sobretudo, à essência dos detalhes...

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Morrer de sonhar



Tenho sonhos misturados
a quimeras
e quero vivê-los todos,
a cada dia
e a vida inteira,
porque viver tem
que ter fantasia.
E quando, enfim, realizados,
não forem como eu quisera,
viverei querendo tê-los,
inda que morra sem sabê-los
inda que morra nessa espera...