quinta-feira, 29 de março de 2012

Saudosismos e Reminiscências (crônica)

      Quando recordar nos faz tristes, somos saudosistas, mas, se somos capazes de suscitar antigas lembranças com um sorriso aqui, outro ali, ainda que em doídas perdas, estamos sendo tão-somente reminiscentes. 
      O saudosista se agarra ao passado, quer viver nele, custa-lhe entender que o tempo passou. Suas pernas estão no agora, mas a mente estagnou à sombra de lugares ou de pessoas insubstituíveis nas suas afeições. Muros altos e limosos o impedem de transpor caminhos novos. O reminiscente é como um beija-flor fascinado por suas flores, passeia pelo jardim do passado e tem o dom de nos trazer o seu perfume.
      O reminiscente brinca com suas recordações; o saudosista a chora eternamente.
      O saudosista nos entristece com suas lembranças; o reminiscente nos emociona. 
      O saudosista é um navio imenso de madeira tosca, sem cor e eternamente ancorado; o reminiscente, um barco inquieto, esfumado ao vento, que vai e volta, vai e volta... com a leveza dos que singram.
      O saudosista é um narrador trágico, seus personagens soluçam, cobertos por nevoentas imagens; o reminiscente, um contador de histórias, deitado numa acolhedora rede, à sombra de frondosa árvore, brincando com seus personagens do passado.
      O saudosista incorpora a dor e a veste; o reminiscente a despe, e sutilmente a sopra.
      O reminiscente nos abraça e no faz dançar iluminados; o saudosista nos tranca num baú de recordações e apaga a luz. 
      O saudosista é um beduíno solitário e cabisbaixo, na imensidão de um deserto, e nunca chega a lugar nenhum; o reminiscente, um caminhante fagueiro, sedutor e cativante que nos convida naturalmente a caminhar com ele até ali...     
      O saudosista sobe às montanhas e se senta ao chegar ao topo; o reminiscente se joga lá de cima com suas asas mágicas. 
      Enfim, o saudosista faz das suas recordações o buraco negro do cosmo, onde nos perdemos e desaparecemos; o reminiscente nos mostra os planetas e seus sóis e, envolvente, nos leva a um passeio pela via-láctea...