segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Quem saberá?

O amor quando
se esvai,
onde será que ele
se esconde?

Quem sabe
pra onde
ele vai?
Quem sabe,
quem saberá?

O vazio da
dor que fica,
de onde vem,
pra onde irá?

Se o amor
com a dor
troca de posto,
ora prazer
ora desgosto,
tanto sorrir,
tanto sofrer...

Por que o amor
vem, se tem
que partir?
Por que vem,
se breve partirá?
Quem sabe?
Quem saberá?
 

Voo infinito

Sou pássaro que sonha,
sou sonho que voa...
Quem voará comigo
no meu voo incerto,
sem abrigo e alento,
no meu voo de vento,
nas minhas asas
abertas?
 
 
 
 

sábado, 16 de novembro de 2013

Saudade lilás (crônica)

          Todo sentimento tem uma cor relacionada com o efeito que repercute em cada pessoa. Daí eu concluo que a saudade é lilás... Aquele tom entre o rosa e o azul, que faz ninho por trás das auroras no amanhecer de um dia morno e preguiçoso. E brilha dentro de nós como a malacacheta, instigada pelo reflexo do sol.
        Falo daquela saudade que não dói sentir, que combina com licor de amoras e perfume de jasmim. Que nos tira para dançar ao som de Straus, Mozart ou Beethoven, depois, conduz-nos felizes a um cantinho, entre almofadões macios ou em rede que nos embala para muito além das horas comuns e de um tempo comum... 
         Saudade lilás não tem pressa nem produz ansiedade.
          Saudade lilás nos traz de volta a maciez do beijo consentido e do abraço compartilhado, que sorrateiros se instalam, bem o alcance, onde é possível revivê-los intensamente e no instante presente. 
           Saudade lilás leva a gente para um passeio à beira-mar, nos faz falar sozinhos, rir sozinhos, sem motivo, feito criança, sem se importar que a observem ou a julguem excessivamente distraída e meio louca.
           Porque saudade lilás é exatamente a mistura de uma e outra: distração e loucura, o que a faz indefinível para certas pessoas, disfarçada para outras e com segredos cúmplices com poucas...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Testamento afetivo (crônica)

                       
      
       Um dia, sei que deixarei esta vida. E procurei vivê-la leve, como quem passeia na praia, descontraída, colhendo conchinhas do mar, respirando um perfume que nunca soube de onde vem, perfeitamente feliz, sozinha, ou ao lado de gente que gosta de sorrir à toa também.
       Vivi como quem costura uma colcha de retalhos coloridos, em quadrados e losangos, formando um mosaico de todos os momentos bons e os não tão bons assim. Depois, transformei-os em um quadro raro e possível na minha fértil imaginação.
       Vivi sem assustar ninguém, ou com gestos descabidos ou decisões incompreensíveis. Reservei apenas algumas surpresas, todas boas de saber, todas boas de sentir. Aquelas que fariam a minha alma cantar, se alguém também as me reservasse. 
        Vivi como quem sabe que todo final de semana ditoso pode ser hoje, e o ano inteiro...
        Não fiz poupança, não guardei dinheiro, não deixarei, portanto, nenhuma cobiçada fortuna. Estou absolutamente certa, por conta disso, de que ninguém há de torcer para que eu morra, logo à primeira pneumonia que me acometer. 
        Deixo meus livros, não são muitos, doei alguns, emprestei outros, que nunca mais retornaram. E agonizamos ambos de saudade vida afora. Os que sobreviveram, que fiquem em mãos que os acariciem, que os preservem de maus humores e ranzinzices, e que jamais sirvam apenas de peso para um amontoado de papel. Que os tome quem os ame somente, e, mais ainda, que os leia, além da capa. Torço para que, lendo-os, entenda-os, a ponto de os querer ler de novo, uma e outras vezes... Ia me causar profunda dor, se transformassem em meros enfeites na estante de alguém.
          Carro, roupas e quase nenhuma joia, não os incluí na minha lista de objetos especiais, por não terem para mim nenhum referencial afetivo. Portanto, além dos livros, uma caneta dourada, que ganhei no sorteio com a turma, na minha formatura de jornalista. Tem o meu nome e uma data, não sei se poderia interessar a alguém. É delicada, bonita e, desafiando o tempo, ainda dourada, como nova. Uma caneca com um pires, que comprei para ajudar em uma campanha de proteção aos animais, trazem o desenho de um gatinho na caneca e o de um cãozinho, no pires. Sugiro que fique com eles somente a pessoa que se identifica com os animais, do  contrário, seria muito desconfortável olhá-los todos os dias, no café da manhã ou no chá da tarde. Um oratório pequeno, de vidro e madeira, com alguns santos do meu fervor, a quem não dei muito trabalho, todavia, deles recebi proteção e companhia na minha fé. Quem os escolher, espero que tenha infinitas bênçãos e graças alcançadas.
      Por fim, um álbum de fotos, atuais e antigas, em lugares comuns, mas significativos, repletos de detalhes que só eu sei nominar e traduzir. Um deles está numa árvore de tronco robusto, generosamente frondosa, centralizada, dividindo ao meio parte de uma rua. Suas raízes teimosas, entediadas da escuridão funda da terra, preferindo o acolhimento da luz, rasgaram-se expostas e nuas, desafiando a dureza das pedras.
        Há uma sintonia velada entre nós...  
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ponderações da sorte (crônica)

          A sorte não é um dom, não escolhe, nem predetermina, mas, é certo, anda de braços dados com a competência. Pássaro de voo imprevisível, pousa onde seu bico apontar. 
          É impossível uma pessoa bem-sucedida que tenha tão-somente sorte em sua vida. Quem  não se planeja, com perseverança, determinação e bom-senso, nunca poderá fazer boa parceria com a sorte, esta se divorciará, tão-logo vislumbre deslizes capitais, como a falta de planejamento e o consumismo exacerbado.
          A sorte é aleatória, mas exigente e implacável, não compactua nem confabula com o descaso, a preguiça e a irresponsabilidade. Quantos, jubilados pela sorte, viram sua fortuna escorrer pela sarjeta por negligência e esbanjamento?  Só com equilíbrio se norteará  a sorte por visibilidades límpidas, sem atalhos imprevistos ou sinuosidades ardilosas. 
          Deslumbramento e ganância também são fatais para a permanência da sorte, que só se estabelece em base sólida de caráter.  É avessa aos que não a levam a sério, assim como não tem sintonia com os distraídos e inconsequentes. Isso a confunde  nos seus propósitos. Tem afinidade com os que ponderam e refletem, mas entra em conflito com os ansiosos e precipitados.
           A sorte pode ser duradoura e eterna, assim como efêmera e transitória, feito o rastro de um cometa.
           Ao ser visitado pela sorte, é fundamental fidalguia na receptividade, como um bom anfitrião, para não fazer feio no banquete... 

Medo, o protagonista (crônica)

                                 
  
        O medo nos rouba o calor humano da convivência com as pessoas, nos faz julgadores precipitados e esmorece a nossa ousadia. Ao telefone -  tantos são os golpes que assolam esse meio de comunicação tão essencial em nossas vidas- , nos tornamos lacônicos, questionadores, até mesmo rudes e antipáticos. 
      O medo pode nos fazer trocar o aconchego de casas amplas, com  passarinhos nos jardins e vizinhos com quem convivemos, como se fossem membros da nossa família - que sempre têm um chá caseiro e milagroso que nos curam de qualquer mal, um arroz quentinho ou um colchonete providencial para nos acudir quando recebemos uma vista inesperada - por apartamentos em condomínios supervigiados por câmeras, alarmes e sensores de presença, que nos protegem, mas nos roubam a privacidade, o acolhimento e a espontaneidade,  por vizinhos de quem  nunca procuramos saber o nome, pouco nos interessamos pelo seu bem-estar e com quem nos limitamos a um bom-dia, no máximo civilizado.
        Não bastasse nos isolarmos por medo, ainda o transferimos para os nossos filhos, que se encarregarão de o aperfeiçoar e multiplicar, como uma herança maldita.
        É o medo que hoje ecoa em verso e prosa,  protagonista nas mídias e sucesso nas  telas de cinema. Escreve-se para quem tem medo, porque o mundo transpira e respira medo. Ele tem produzido poetas e escritores urbanos de visões e inspirações urbanas, que registram viagens e paisagem verticais, como se observássemos fotos de revistas de turismo. Poetas sem êxtase e escritores prosaicos, que mais se assemelham a psicólogos a nos oferecer suas mensagens de autoajuda. Nos seus escritos, falta chuva no telhado, faltam terra molhada e flores cultivadas em canteiros nas janelas, faltam personagens de amores contidos, sorrisos furtivos e  olhares intraduzíveis, resguardando sentimentos antigos, falta, enfim, a poesia,  a antítese do medo, a sua incompatibilidade.
          O medo sugou a poesia na maioria das almas e dos corações, usurpou a delicadeza, a brandura, nos tem confinado, isolado e, a cada dia, nos faz prisioneiros em nossas próprias casas e reféns dentro de nós mesmos...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Gente que é arte (crônica)


             A vida me mostrou que amigos são como um cordão invisível  e terno, que nos enlaça e puxa em direções ora oblíquas ora convergentes, aqui e ali, abrindo e fechando elos afetivos.                
              Eu não conhecia Lilia, a anfitriã. Fui levada a sua casa por uma amiga, onde encontraríamos outros amigos. Amigos que se reúnem para aconchegar a amizade num copo de suco ou em uma xícara de chá. Só que eu não supunha ser um encontro com a arte, a arte mais simples e delicada, sem sofisticação, sem rebuscamento, só alma. Com gente que é a própria arte. 
              Que bom constatar que as pessoas que imaginamos únicas, acabam transcendendo o imaginário.
               Uma borboleta, multicolorida e quase viva, de tão real, colada à porta de entrada, não estaria ali por acaso. Mãos especiais a teriam designado guardiã de algum tesouro, que não se descreve com palavras.

            Lília, uma senhora de olhos brilhantes e sorriso afável, fez-me sentir como se eu costumeiramente frequentasse aquela casa. Generosa, de leveza nos gestos, feito gente que transforma naturalmente em arte tudo o que toca, mas não se dá conta, talvez porque Deus escolhe os seus artistas, mas não revela a eles sua escolha, delegando essa tarefa à observação sensível de alguns, e, quem sabe, por merecimento, absorvê-la.
      A viuvez não a fizera solitária, ao contrário, deixara-se acompanhar pela pintura, que coloria os seus dias em movimentação e prazer, tornando sua companheira fiel, "mas exigente", ponderou, com um sorriso brincalhão. "E, muitas vezes, impaciente", emendou, num tom simulando crítica.
         Havia quadros, pintados por ela, distribuídos pelas paredes dos diversos ambientes da casa: antessala, sala e quartos. Senti-me imediatamente abraçada e acolhida pela arte. Com voz mansa, quase inaudível, fez questão de falar sobre cada um dos quadros: a motivação e o tempo que levou para pintá-los. Ali, sob as paisagens de campo, montanha e mar, a arte também registrava um pedacinho de sua história de vida.
     A disposição geométrica dos pratos, copos e talheres era pura arte, espontânea e despojada.
      Os sucos, em jarras transparentes, tinham cores indefinidas, que também brincavam de arte, bem diante dos meus olhos.
      Lília pegou o meu copo, delicadamente, colocou um pouco de suco e pediu-me para experimentar e adivinhar o sabor. Num átimo do segundo, voltei à minha infância, quando sentada no chão, em círculo, ao lado de outras crianças, brincávamos de adivinhação.
     O suco impregnou a minha boca de um sabor intraduzível. Bebi um gole e outro mais. Sacudia a cabeça pedindo socorro aos céus, para ajudar-me a traduzir o gosto daquele néctar dos deuses, mas tudo em vão.
     O sorriso confortante de Lília me acudiu prontamente.
     - É uma brincadeira que faço com meus convidados. Os sucos são feitos com diversas frutas exóticas, misturadas. O sabor fica propositalmente indefinível.
     Senti-me apanhada na doce brincadeira e sorri maravilhada. Todos sorriram contagiados, e o lanche transcorreu em meio à afetividade e arte, trocando de lugar o tempo inteiro.
     Arte que esculpe sorriso aberto em mãos naturalmente mágicas, arte que a gente absorve e cataloga no âmago, porque é onde guardamos o abissal divino.

domingo, 27 de outubro de 2013

Definição de borboleta




São entes alados,
seres vivos ou vividos,
amados e amigos,
no mais puro afeto
do coração.
E, estou certa, Deus
os disfarçou em borboletas,

colorindo o espaço
e a imaginação do poeta...

Gotas na vidraça




 Gotas na vidraça parecem lágrimas...

escorrendo ou escorridas.

Aquelas que moram nos olhos escondidas,

confundem a vista, embaçam imagens,

e deixam cinza de desgosto

o colorido da paisagem,

que, apagada e sem vida,

escorre sem graça pelo rosto...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013


POESIANDO


POESIA
 EM PROSA E VERSO





 
                        


Os sonhos me repõem, me alicerçam, porque sonhar solidifica a minha essência...




     

               Solange Medina 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Olheiras de poeta (crônica)



    Seus olhos, lânguidos, se abrem sem nenhuma pressa. O compromisso pisca, incessantemente, no rádio-relógio. Inútil  marcar o tempo, se ele é todo fluidez e escapa,  se é o inexorável instante que se esvai, imprevisível...
     O sol teima passar seus raios por uma fresta distraída, na cortina do quarto, atraindo-lhe  os olhos preguiçosos para aquele ponto de luz. Não aprendera a se desvencilhar dos lençóis e da cama, com a agilidade que a necessidade impõe. Perdia sempre nesse embate. 
    O café da manhã digladiava com o cair da tarde, ainda cheirando a almoço, servido há pouco. Amava os contrastes que desafiam rituais e rotinas. 
     Nada como um banho morno e demorado para desamarrotar corpo e pensamentos conflituosos. As olheiras, contudo, teimavam ficar. Cunhadas ao longo de uma vida, ao redor de seus olhos, traduziam sua história e sua alma. Olhos sem olheiras? Inconcebível!  É como o sol sem o seu halo. De onde partiriam calor e luminosidade? É como a flor sem o seu núcleo. De onde penderiam suas pétalas, grávidas de néctar? Olheiras, sim, é que são o relógio de cada um. Delineadas na face, registram histórias, substanciam existências... São elas o pano de fundo de um sorriso dos olhos, o único e verdadeiro sorriso. Meros condutores, os olhos são apenas uma referência, é o olhar que traduz a alma. Feliz do mortal que recebe um sorriso dos olhos...
      Uma pose para o espelho, desdenhando a sua avaliação, e um empurrão em si mesma. Lá fora, um bom-dia em pensamento para a rua, em meio à floresta de gente. Quantas histórias abraçadas às pessoas que caminham.  Nas calçadas, nos restaurantes, nos bares, nas padarias e em cada esquina. De repente, um encontro que desenrola outros encontros... Tantos roteiros de vida que alguém, um dia, há de registrar.
      Alheios às suas divagações, pássaros e insetos se misturam no ar,  também construindo as suas histórias. 

       Um outdoor aqui, uma placa ali, fincados na indução e no consumismo, são cortinas e luzes acesas no palco de tantas histórias, concebidas sob o olhar inventivo da poeta, com olheiras, regadas e cultivadas noite adentro, madrugada afora, mas camufladas sob os óculos escuros...
 



Frases



 
*Amar não é querer o reflexo do espelho no outro, porque é exatamente nas diferenças que crescemos e nos tornamos melhores. Da mesma forma, identificação não significa semelhança, mas harmonia que leva à sintonia de pensamentos.
 





*Quem ama egoisticamente, ama
tão-somente a si mesmo, o outro é apenas um pretexto para a sua ostentação. 




*Amar, às vezes, requer renúncia, que não deve ser confundida com autopunição, mas sabedoria para enxergar o fim de um ciclo e vislumbrar a renovação da vida.




*Uma vez que tudo é cíclico, deve-se amar como um  jardineiro, um agricultor. Toda colheita e todo florescer passam pelo plantio e pelo regado, até chegar às flores e aos  frutos. Sem planejamento, paciência e determinação, queimam-se etapas, e  o plantio é inexoravelmente devastado. 




*Um relacionamento é feito de conquistas diárias, isento de posse, senão, corre-se o risco de viver um amor sem viço e precocemente envelhecido. 




*Amar nem sempre é só risos e encontros, reveste-se de emoções extremadas e paradoxais, chorar por conta de perdas e separações pode renovar forças, acrescentar reflexão e maturidade.


 
 
 
*Muitas vezes, as aparências nos levam a concluir que algumas pessoas abandonam suas lutas. Prefiro crer que elas apenas as direcionam.
 
 
 
 
 
*Não existe o poema perfeito, mas a perfeita sintonia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 

 



 
 

Poeminhas


 Lua
Pálida e insone
nas noites minhas,
por que  me instiga
movediças juras de amor?
Por que esplendorosa
me alumia breve fulgor,
e em vão me atiça
à poesia, e às trovas
me entontece?
Se quando ao clarão
do sol se espreguiça
tão fria e desaparece,
levando minha inspiração?
Céu
Contas do meu terço,
quantas  contam
o que sou
ou que mereço sê-lo?
Para onde vou?
Quem me dará o sinal
aos apelos meus?
Quem os julgará no final?
Será Deus?





Delicado convite
Entre na minha vida,
faça dela a sua vereda,
o seu habitar,
mas caminhe lento,
delicado,
pois tenho cristais por dentro
e sonhos resguardados,
alados, prontos para voar...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Urgência de viver (crônica)

                                          
       
                                     
     O excesso de urbanidade tem despertado em mim a necessidade incontida do contato com a natureza. Ando sentindo urgência de uma casinha no mato, com árvores de galhos fartos que abraçam receptivos, não de edifícios frios que encobrem o céu.
     Tenho urgência de sentir os meus pés caminhando na terra, de respirar o vento das montanhas ou do mar, chegando saudável aos meus pulmões. De pássaros comuns que os farei raros e os admirarei à distância permitida. Prometo-lhes a mais compreensiva companhia e as boas-vindas em bebedouros de água fresquinha, sob frondosas árvores com frutos suculentos, ao ar livre, e não em cruéis gaiolas, penduradas num teto qualquer. Quero-os livres e festeiros na minha janela. Sequer vou me importar que ali façam seus ninhos e se instalem, e ainda lhes garanto protegidos contra os sobressaltos da perseguição.
     Tenho urgência de sentir cães brincando com gatos ao meu redor, contrariando mitos da estranheza e da incompatibilidade entre eles. Quero me encantar com as folhas secas e verdes, dançando de mãos dadas ao rodopio do vento. Sei que me trarão aconchego e harmonia, sem interferir no silêncio que há muito não escuto: o barulho ensurdecedor da civilização não me permite mais. Ela é a mão gigantesca que encobre o sol e as noites estreladas.
     Tenho urgência de retomar, ainda, a visão da lua, adentrando seu brilho por todos os vértices da  casa, salpicando nela perfume e mistério.
     Depois de um tempo, paparicada pela plenitude, por animais e pássaros, vou me permitir a visita de gente sem medo e que também não me assuste, com evasivas e invasões ou permanências efêmeras.
     Gente que já tenha escrito um ensaio sobre a urgência de essencialidades, de vida e possa entender o que eu não digo, mas tão evidente nas entrelinhas...








sábado, 15 de junho de 2013

Portas e chaves

Tenho tantas portas
e de chaves tão incertas.
Portas fechadas,
outras abertas...
Qual chave abre
a minha porta
fechada?
Qual fecha
 a minha porta aberta?

POESIAndo

Faço versos
me peregrinando
por dentro,
quando alcanço
o meu fundo,
ando na poesia:
poesiando...

Para sempre

Amar é descontínuo,
quando é acaso,
mas se for destino,
proposital,
há que ser uma história
sem ponto final.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Despedida na confeitaria (crônica)


     Como supor um fim de namoro na confeitaria? Combinar doces com amargor, desolados e confeiteiros misturados?
    Quanta ironia no cenário escolhido. Quanta estranheza nos olhos que se olham sem ser ver por inteiro. Quanta desavença a um tempo estornada e exposta, abraçada aos que partem lado a lado e distantes.

    No fundo, não há consolo, quando se vislumbram o irremediável e o óbvio, desabando para o inexorável. Ainda queria se agarrar a uma  ilusória  possibilidade,  mas migalhas não alimentam, só fragilizam e esgotam.  E tudo o que  inventasse agora, para  detê-los, nada mais seria do que o suplício adiado.
       Quisera chorar, ao supor que chorar a  confortasse. Mas a lágrima não veio para se despedir, estagnou implodida na garganta, observando todos os seus estragos por dentro. E quando ela não escorre, os lábios se vergam feito riso, mas é só o trejeito da dor, reflexo da alma em trapos.
   Engasgada, meio viva,  meio morta, suas mãos abandonam a mesa, já sem guardanapos. Leva-os todos no fundo da bolsa, amassados e com alguns poemas no meio, todos ininteligíveis, inacabados e desconexos, porque a inspiração também não veio para se despedir, só o vazio infértil de rompimento e perda.
     Levantam-se, quase ao mesmo instante. Um leve roçar de ombros, descuidadamente, ao acaso, entre passos tropeçados.  Lá fora,  a chuva  chora por ela, como se zombasse da sua incapacidade de chorar. E o vento, desalinhando seus cabelos, teima em esconder a palidez que a revela.
       Dispersam-se, sob um silêncio que faz doer suas  entranhas. Nenhuma lágrima, nenhum argumento, nenhum apelo. Melhor assim - pensou. Não se retém o que na verdade nunca se teve.
     Sem beijos, sem risos furtivos, sem clamores contidos, sem olhares sorrateiros, e sem vontade de ir embora.

     A despedida ficou do outro lado da rua...

Excesso de liberdade (crônica)

                                              
    Liberdade. Já lutou-se tanto por ela. Quantas vidas confrontadas e ceifadas em seu nome, quantos heróis mortos por empunharem suas lanças e espadas em batalhas que escreveram histórias. Todavia, eis que ando profundamente assustada com o excesso de liberdade no mundo de hoje. Liberdade que já não se conquista. É oferecida e consentida, antes mesmo de os jovens chegarem à adolescência. Porque há um apelo velado dos meios de comunicação que chegam avassaladores às escolas e a elas também lhes ditam O RUMO DA LIBERDADE. Ou se dá liberdade ou se perde a harmonia, e esta se vê  em conflito nos lares, entre o ser e não ser shakespeariano na orientação dos filhos.
   As crianças já não brincam  nem os jovens namoram nos românticos e ingênuos bailinhos, não possuem estantes, porque não leem livros, que hoje são facilmente resumidos pelo computador que lhes dão um mundo ilimitado de liberdade via internet, onde copiam pesquisas prontas, fazem amizade insípida e namoram virtual e perigosamente.
    Transformaram-se em crianças-zumbis: olhos fundos, ou muito magras ou quase obesas, resultado de noites maldormidas, consumidas pelo necessário e maldito computador. Pobres pais. Impossível competir com esse gigante maravilhoso e a um só tempo traiçoeiro, porque o demônio nem sempre é feio. Ele tem o poder de se vestir de galã.
    Certo dia, ouvi da filhinha de onze anos de uma amiga minha, reclamando com ela: "Mãe, nenhuma coleguinha quer brincar comigo, estão todas no computador. Será que nasci em época errada?"
     Lembro-me que na minha adolescência, e isso já vai mais da metade de um século, eu também me sentia estranha no meu tempo e no mundo. Gostava de ficar em casa, lendo e escrevendo, enquanto a maioria preferia sair para dançar. A diferença era que tínhamos uma liberdade conquistada, ao contrário desta de hoje, exposta como num self-service segredando: "Sirva-se". Certamente há um ônus nessa exposição a curto prazo e se repercutirá nas costas dos pais e muito mais na vida caleidoscópica dos nossos jovens.
     Também acho que nasci numa época errada, mas a de hoje causa-me estranheza, quando não me deixa perplexa. Contudo descobri, vivendo, que há sempre algum propósito para a lucidez que se levanta. Daí que a responsabilidade passa a ser minha de operar mudanças necessárias que me confortem, com as quais eu me sintonize, senão, viver seria por demais enfadonho. Elas me impedirão de escorregar nesse funil, onde tantos se espremem para não ficarem diferentes, só para fingir que entendem e aceitam o sistema.
      A responsabilidade passa a ser minha de fazer ouvir o meu pequeno grito, mesmo que eu me descubra a heroína às avessas da liberdade.



O silêncio da felicidade (crônica)

               
      Disse-me certa vez um amigo, desses raros, com quem conversamos como se conversássemos com nós mesmos: "Seja discreta na sua alegria e silencie ao máximo a sua felicidade, os ouvidos e a percepção da inveja são mais atentos do que se possa imaginar, quando ela constatar o seu sorriso fácil, aí já será tarde, a felicidade terá tomado o seu assento e se instalado no lugar que lhe foi destinado e no tempo que tem que ser, no tempo da própria vida... "
   Não gostaria de viver muitos anos sem ter vivido intensamente. Quero sempre olhar o amanhecer e constatar que a minha construção pessoal foi consciente, que contribuí permissivamente para ser o que sou. Que fui menos teimosa ou arrogante nos meus propósitos, mas muito mais obstinada. Saudei as minhas vitórias com celebrações discretas, respeitando o adversário, porque também experimentei a derrota um dia, que me fez aprender a perder, o que não significa ter-me acomodado. A canção que entoei nos dias felizes ecoaram nos meus momentos de perdas. Quando estive fragmentada, recolhendo os meu pedaços, entendi que a felicidade requer atenção, é necessário ser feliz com reservas. Faz-me lembrar a roda gigante do meu tempo de criança, naqueles parques coloridos e agitados de músicas e luzes, como se personalizasse a felicidade. A roda girava, girava, ao som da alegria. De repente, ela parava lá em cima, e um calafrio assustador e implacável fazia balançar nos ares as nossas pernas miúdas, sem chão. As estrelas pareciam mais perto, mas a solidez, cada vez mais distante...
   A felicidade pode ser euforia e calafrios, como uma roda gigante. Seremos sempre pequenos e crianças para entendermos os propósitos divinos, tão intraduzíveis quanto inevitáveis. E nunca estaremos atentos suficientemente para não sermos surpreendidos.
   Mas sei, também, que na noite há sempre uma estrela, mesmo invisível, porque acredito que ela está lá...
  Sonhadora que sou
  recolho a minha estrela
  e a levo para dormir,
  mas a empresto ao céu,
  quando o céu me pedir...

terça-feira, 19 de março de 2013

Rosas amarelas (crônica)

  Se você ama uma flor, não a colha, porque se você colhê-la, ela morre e deixa de ser o que você ama. Então, se você ama a flor, deixe-a estar. O amor não está na posse, mas na apreciação.  (Osho)




Herdei de minha avó a preferência por rosas amarelas. Dizia, com a sabedoria de uma cultivadora, que elas eram especiais. Passei alguns anos tentando descobrir a essência dessa especialidade, muito além de seus espinhos mais frágeis do que os das rosas de outras cores e de seu suavíssimo perfume. É necessário permitir-se um tempo entre você e a rosa amarela, se quiser descobri-la. É necessário, talvez, uma vida...
    Uma roseira de rosas amarelas parece a sonata que o músico ainda não compôs, o poema ainda não saído da inspiração do poeta e apenas um esboço na tela do pintor.
    Que amarelo fascinante tonaliza as rosas amarelas? Gotinhas do Sol? Bordas do arco-íris? Onde encontrar o parâmetro para a cor que a compõe? Traduz silêncio revelador e cúmplice, solidariedade abissal que aconchega, ternura mansa de mãe e maciez dos gatos angorás. Sem soberba e altivez, reina absoluta e espontaneamente sua beleza rara entre todas as rosas. Combina com sorrisos tímidos e sentimentos delicados. Não inspira ousadia, arrebatamento, mas posturas elegantemente contidas. Harmonizam-se com os vinhos brancos e os champanhes borbulhantes nas taças de cristais. Se eu as pudesse personalizar, diria que as rosas amarelas são fadas ou bailarinas, possuem passos leves, como se flutuassem, não gritam, mas sussurram, não seduzem nem apaixonam, mas cativam e encantam.
    Igual a minha avó, penso que nunca deveriam sair de suas roseiras para serem transformadas em buquês ou enfurnadas em jarras e arranjos por nenhum motivo.
         Flores têm alma e vida,
        devem nascer e morrer
        nos galhos das floreiras.
        Rosas de todas as cores
        nunca deveriam ser   

       arrancadas das roseiras.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Desdenho inútil

 
 
Que impasse essa dúvida
que dilacera  a alma e se incrusta
na  minha razão vazia.
Quero, mas sei que não devo
e desdenho com ferina ironia
o que me frustra o desejo.
E assim, entre disfarçadas
rimas, disparo o meu descaso,
inutilmente,
pois sou eu que tombo,
escorada nos meus versos,
sou eu que tombo,
atingida mortalmente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

serenIDADE


Quanta busca, quanto desencontro
na fase impetuosa dos sentimentos:
a mocIDADE.
ImaturIDADE que nos faz pensar
que é cortina, o que na verdade
é teia...
Tudo acena a aventuras desmedidas,
tudo atiça e desnorteia,
seduz e desarvora...
Mas o tempo é mestre:
ora ruidoso ora silente,
não somente nos envelhece,
também pondera, amaina,
e muito mais nos amadurece.
E tudo passa...
O que antes era furor,
avalanche incessante, 
agora são águas mansas e escorrem
para um rio virtuoso e pleno.
Outro tempo soberano que emerge
nos faz atentos e suaves,
reflexivos e serenos:
serenidade, serenIDADE...