quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Olheiras de poeta (crônica)



    Seus olhos, lânguidos, se abrem sem nenhuma pressa. O compromisso pisca, incessantemente, no rádio-relógio. Inútil  marcar o tempo, se ele é todo fluidez e escapa,  se é o inexorável instante que se esvai, imprevisível...
     O sol teima passar seus raios por uma fresta distraída, na cortina do quarto, atraindo-lhe  os olhos preguiçosos para aquele ponto de luz. Não aprendera a se desvencilhar dos lençóis e da cama, com a agilidade que a necessidade impõe. Perdia sempre nesse embate. 
    O café da manhã digladiava com o cair da tarde, ainda cheirando a almoço, servido há pouco. Amava os contrastes que desafiam rituais e rotinas. 
     Nada como um banho morno e demorado para desamarrotar corpo e pensamentos conflituosos. As olheiras, contudo, teimavam ficar. Cunhadas ao longo de uma vida, ao redor de seus olhos, traduziam sua história e sua alma. Olhos sem olheiras? Inconcebível!  É como o sol sem o seu halo. De onde partiriam calor e luminosidade? É como a flor sem o seu núcleo. De onde penderiam suas pétalas, grávidas de néctar? Olheiras, sim, é que são o relógio de cada um. Delineadas na face, registram histórias, substanciam existências... São elas o pano de fundo de um sorriso dos olhos, o único e verdadeiro sorriso. Meros condutores, os olhos são apenas uma referência, é o olhar que traduz a alma. Feliz do mortal que recebe um sorriso dos olhos...
      Uma pose para o espelho, desdenhando a sua avaliação, e um empurrão em si mesma. Lá fora, um bom-dia em pensamento para a rua, em meio à floresta de gente. Quantas histórias abraçadas às pessoas que caminham.  Nas calçadas, nos restaurantes, nos bares, nas padarias e em cada esquina. De repente, um encontro que desenrola outros encontros... Tantos roteiros de vida que alguém, um dia, há de registrar.
      Alheios às suas divagações, pássaros e insetos se misturam no ar,  também construindo as suas histórias. 

       Um outdoor aqui, uma placa ali, fincados na indução e no consumismo, são cortinas e luzes acesas no palco de tantas histórias, concebidas sob o olhar inventivo da poeta, com olheiras, regadas e cultivadas noite adentro, madrugada afora, mas camufladas sob os óculos escuros...
 



Frases



 
*Amar não é querer o reflexo do espelho no outro, porque é exatamente nas diferenças que crescemos e nos tornamos melhores. Da mesma forma, identificação não significa semelhança, mas harmonia que leva à sintonia de pensamentos.
 





*Quem ama egoisticamente, ama
tão-somente a si mesmo, o outro é apenas um pretexto para a sua ostentação. 




*Amar, às vezes, requer renúncia, que não deve ser confundida com autopunição, mas sabedoria para enxergar o fim de um ciclo e vislumbrar a renovação da vida.




*Uma vez que tudo é cíclico, deve-se amar como um  jardineiro, um agricultor. Toda colheita e todo florescer passam pelo plantio e pelo regado, até chegar às flores e aos  frutos. Sem planejamento, paciência e determinação, queimam-se etapas, e  o plantio é inexoravelmente devastado. 




*Um relacionamento é feito de conquistas diárias, isento de posse, senão, corre-se o risco de viver um amor sem viço e precocemente envelhecido. 




*Amar nem sempre é só risos e encontros, reveste-se de emoções extremadas e paradoxais, chorar por conta de perdas e separações pode renovar forças, acrescentar reflexão e maturidade.


 
 
 
*Muitas vezes, as aparências nos levam a concluir que algumas pessoas abandonam suas lutas. Prefiro crer que elas apenas as direcionam.
 
 
 
 
 
*Não existe o poema perfeito, mas a perfeita sintonia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 

 



 
 

Poeminhas


 Lua
Pálida e insone
nas noites minhas,
por que  me instiga
movediças juras de amor?
Por que esplendorosa
me alumia breve fulgor,
e em vão me atiça
à poesia, e às trovas
me entontece?
Se quando ao clarão
do sol se espreguiça
tão fria e desaparece,
levando minha inspiração?
Céu
Contas do meu terço,
quantas  contam
o que sou
ou que mereço sê-lo?
Para onde vou?
Quem me dará o sinal
aos apelos meus?
Quem os julgará no final?
Será Deus?





Delicado convite
Entre na minha vida,
faça dela a sua vereda,
o seu habitar,
mas caminhe lento,
delicado,
pois tenho cristais por dentro
e sonhos resguardados,
alados, prontos para voar...