quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Tristeza e felicidade


É coisa da mocidade
ora  ficar contente,
ora  tomado de tristeza?
Mas na maturidade,
com certeza, um ali outro aqui,
se à toa se entristece
tão de repente sorri.

Quem, por um descuido do bordado,
misturou as cores da linha,
nesse oscilante traçado,
e a alegria que vinha,
já vinha com a tristeza ao lado?

Quem  bordou, tão displicente,
esse bordado matizado,
num tempo sem idade?
Quem bordou, na vida da gente,
esse bordado misturado
de tristeza e felicidade?

domingo, 6 de novembro de 2016

Quase...

Quase encontro, perdida procura,
quase  luz, no meio do escuro.
Quase furor, confusa ternura,
quase imploro, quase que juro.
Quase nego a minha loucura,
quase o grito vira sussurro.
Quase mãos entrelaçadas,
quase embargam toda saída.
Quase tudo, de repente, é nada,
quase tudo fica sem vida!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quem sou?


Se quem eu sou é real ou sonho,
nada me tiro ou me dou,
fico onde me proponho
ou me acompanho por onde vou...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Por onde andas?


Por onde andas que não mais pisaste,
na relva que para ti semeei?
Fostes tão breve e frágil como a haste
da pálida flor que um dia te dei.

Desenha-se agora esta saudade,
nos meus versos idos e vãos.
Penso que de tanta soledade,
foi contigo minha inspiração...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Sonhos à beira-mar

De manhã cedo, de manhãzinha,
chapinho os pés na areia do mar,
e como se praia inteira fosse minha,
sou só devaneios e me ponho a sonhar.

Quando chega a tarde, a tardinha,
o sol se pondo, entre nuvens amarelas,
espio sorrindo as volitantes andorinhas,
girando no céu os meus sonhos com elas.






sexta-feira, 8 de julho de 2016

Alma de poeta (poeminha)




Alma de poeta, sempre atenta,
sempre alerta, mas, se distraída,
não é a alma que é isenta,
foi apenas o piscar da vida...

sexta-feira, 6 de maio de 2016


             De volta

De volta a emoção resguardada
no medo silente, que nunca foi embora.
De volta a voz fugidia, sussurrada,
e aquele  arroubo tão adolescente
que nos surpreende agora.
De volta este ardor dentro da gente,
sufocado, errante e reprimido.
Amor sem ter sido amante,
amor que nunca foi vivido...


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Que venha fevereiro


Que venha fevereiro, o mês é pequeno,
mas inteiro.
De sol mais ameno do que janeiro,
é festeiro.
Depois das máscaras, entre cinzas, caídas,
a reflexão para qualquer idade...
E se houver saudade da alegria ida,
cabem ainda, aqui e ali, um abraço,
a saudação à vida, e às águas de março,
que logo virão...

                              

sábado, 30 de janeiro de 2016

Carona em carro de bois (conto infanto-juvenil)

                   
         Não tínhamos skate, patins, sequer uma bicicleta velha, mas tínhamos o carro de bois...
        Antigamente, no interior, poucas casas não possuíam um fogão à lenha. E as lenhas eram transportadas em carros de bois, a nossa inesquecível aventura mambembe. Uma aventura perigosa, pois ao tentarmos subir afoitamente para a carroça, uma vez que fazíamos essa estripulia com ela em movimento, corríamos o risco de nos esborracharmos no chão, ou rolarmos ladeira abaixo, feito uma tora desgovernada. 
         Devido ao iminente perigo a que nos expúnhamos, éramos sempre ameaçados de uma boa surra, caso ousássemos a tamanha desobediência. Daí que nos aventurávamos às escondidas, obviamente com a cumplicidade de toda a criançada. Ainda tínhamos de nos esconder do carreiro, pois era dele a responsabilidade, se algum acidente nos acontecesse.
Prevenido, depois de esvaziada a carroça, ele lançava um olhar vasculhador e meticuloso para todos os lados, ao encalço de alguma criança que lhe pudesse escapar de sua prudente vigília. 
         Pequeninos bandidos, fazíamos tocaia, driblando as balas do olhar do carreiro, que passavam raspando sobre nossas cabeças, enquanto nos agachávamos atrás de velhas catacumbas, fincadas  num terreno baldio, que segundo moradores mais antigos, bem ali, em tempos distantes, fora o cemitério da cidade.
         O cenário era perfeito para tanto medo e emoção: medo da catacumba,  medo consciente de estarmos transgredindo ordens e negligenciando obediências, onde uma surra pendente nos aguardava; e escolhíamos de vez a emoção. 
        O remorso e a ousadia oscilavam na exposição daquela aventura infantil.
        - Oa! Oa! -  gritava o carreiro para os bois. O grito que esperávamos ansiosamente. Ele nos soava como um canto, um acorde, uma senha... 
          Os bois começavam a se movimentar, e lá ia a carroça atrás, requebrando desengonçada. E lá íamos nós, com a rapidez da ventania, arremessando-nos para dentro dela. Um puxava o outro, e nos acomodávamos, coração aos pulos. No lugar de toras úmidas e pesadas, a carroça abrigava, agora, um bando de crianças engasgadas de riso, o riso farto da traquinagem. Impossível detê-lo. 
         Vez ou outra, sentávamos na beirada da carroça e ousávamos deixar nossas pernas balançando para fora, volitando ao vento, como se marcasse o ritmo do nosso coração endoidecido de felicidade. 
           Embalados pelo ranger das rodas de madeira nos paralelepípedos, fazíamos daquela velha carroça um perfeito set de filmagem, especial e particular. Dirigíamos nossas próprias falas, com ousadia, inventividade e os textos naturalmente bem-decorados, porque o script éramos nós, não precisava de cortes nem edição. Quem o viveu não editaria...
            Nossos olhos faziam as tomadas mais perfeitas e fotografavam por conta da emoção.
           E uma película mágica, invisível, ia movimentando uma câmera imaginária.
           Movimentando, movimentando...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

FugacIDADE


Quanto eu te amaria
no momento fugaz,
na languidez das horas idas,
das horas atrás.
Quanto eu te acordaria
nas noites escondidas,
e na mansidão do alvorecer...

Quanto eu me entregaria
na avidez das tuas mãos,
sem pressa e sem me deter, 
na placidez e no turbilhão,
hoje sim, amanhã não...