quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Musicando a dor

Penso, penso, penso....
Por que penso tanto,
se é tão fugaz o sentimento?
Melhor que leve a música
toda dor que ainda sinto
e a melodia, breve,
esta agonia no pensamento.
Mais vale é esconder no que eu canto
todo este meu sofrimento...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Para caminhar ao meu lado (crônica)


      

       Para caminhar ao meu lado, é preciso ter asas nas pernas e no pensamento, porque sou meio gente, meio passarinho... 
        Para caminhar ao meu lado, tem que ser alguém atencioso com os velhos, que goste de criança, de animais e respeite a natureza.

       Tem que ter capacidade de captar a sutileza do que ficou propositalmente vago, saber traduzir o silêncio dos que calam e entender o silêncio dos que revelam. É preciso que conheça a nascente da alegria, porque a da tristeza é bem mais fácil de encontrar, e trazer nos lábios o sorriso fácil das pessoas únicas.
        Que não fuja os olhos dos meus, quando for só isso o que eu precisar. Porque, às vezes, toda cumplicidade se resume no olhar...
         Pode ser teimoso, às vezes até irascivo, mas fácil de ser convencido com um beijo e um afago...

           Tem que ter mãos receptivas e braços que acolhem, acima de tudo,  a grandeza de perdoar e a humildade de pedir perdão. E que a fidelidade lhe seja prazerosa.
           Para caminhar ao meu lado, tem que ser alguém que se indigne com a falta de escrúpulos, com os desmandos e com a conivência perniciosa. 
            Relevarei o insone, o sonâmbulo e os tímidos, pois reconheço uma certa sedução na timidez. É imprescindível, todavia, que seja romântico. 
             Para caminhar ao meu lado, tem que ter voz branda que acalenta, mas firme quando tiver de dar alento. Tem que ser solidário, generoso, ter fé, e que sua religião seja a própria conduta.
             Que não me canse, não me cobre, não me acue.
             Para caminhar ao meu lado tem que ter mãos receptivas aos afagos e ombros ao alcance, para confortarem percalços e perdas. Que traga alento para esperanças perdidas, assim como bálsamos para confianças traídas e, antes de ir embora, tenha sutileza e finja não perceber lágrimas maldisfarçadas, quando se deveria sorrir. Sobretudo, entenda quem é pouco acostumado à felicidade, mas que ainda a exercita, porque sabe que ser feliz é lento, requer persistência, paciência e humildade, é um aprendizado feito de começos e recomeços infinitos...
             Para caminhar ao meu lado, tem que ser um contador de histórias nato, aquele que sempre encontra um final feliz para todas elas, mesmo que lhe escape uma ou outra lágrima.
             Para caminhar ao meu lado, deve ser alguém com ouvido apurado para a música, que saiba apreciar a arte, não necessariamente um artista. Pode até não ter escrito um conto, uma crônica, um poema, sequer um verso, mas que traga a poesia no olhar e tenha alma de poeta.
                Em troca, hei de recompensá-lo com a receptividade grata e festiva dos que esperaram ansiosos a vida inteira... 
















domingo, 16 de setembro de 2012

Solidário querer

Quão triste é perceber
que a  tua mão, estendida
 e boa,
só encontra recusa
e  a hostilidade em  riste,
num coração que nunca
 se doa...
Quão triste é sentir-te
a alma incompreendida, desdenhada,
 jogada às feras da ingratidão
 e ver-te sofrer por quem não merece.
Quão triste o abraço
que não te alcança, sem beijo consentido
e nenhum sorriso à tua espera,
tua luta sem glória e quimeras,
só quimeras,  em vez de esperança.
Quisera para ti, ah, quanto eu quisera
as bênçãos de um coração identificado,
teus sonhos realizados
e um final feliz para a tua história...

sábado, 15 de setembro de 2012

O entardecer (crônica)


   O amanhecer é companheiro das nuvens algodoentas e encarneiradas, mas o entardecer só pode ser o aconchego da poesia. Pouco a pouco, vislumbra-se o amarelo destonalizado do sol, já sem força, despedindo-se com muita pena, e saudoso do dia que se vai... Breve, a nuvem translúcida, feito cortina de voal, há de deitar sua sombra, cinzenta e fina, quer sobre o mar quer sobre montes e campinas extensas e verdejantes. E logo descerá, devagarinho e mansa, para se aconchegar à terra.
     No entardecer, aves e pássaros se alvoroçam num bailado estonteante de volta aos seus ninhos, porque a noite, silente e misteriosa, já se avizinha. O alto de uma montanha escarpada e uma árvore frondosa e forte serão o lugar ideal para um abrigo. Os galhos, cúmplices dessa ânsia por um refúgio, abrem-se acolhedores e lhes acenam, feito braços imensos e despojados para os receber, protetores e em segurança.
     O entardecer são as trombetas dos anjos esvoaçantes, lépidos e inquietos que vêm anunciar a noite.
     O entardecer é sempre manso e risonho, eu até juraria que é o sorriso aquiescente de Deus.
     O entardecer pisca os olhos para os enamorados, ouve suas confidências e todas as juras de amor, no morno da tarde.
     Sobre os morros, o entardecer coroa de brilho multicolorido o mundo, e quando estende por cima do mar o seu reflexo, espraia a imagem mais bela que o pintor, sensibilizado e atento, a reproduz e transforma na sua obra-prima.
     E a alma do poeta, seduzida e reverenciada, desperta e voa ao redor da poesia...      

                                        

(crônica escrita ao som de "Sonata ao Luar" de Beethoven)

Inexplicável (crônica)


 
     Como explicar a sensação de já conhecer uma determinada paisagem, quando a vejo pela primeira vez? Experimento identificação tamanha com lugares pessoas, sons, cores, luzes e sabores, a tal ponto, que as viagens não me fazem mais falta, eu as tenho feito sem sair do lugar...
   Há pessoas que tão-logo as conheço, tomo por elas identificação tanta, que é como se a vida inteira estivéssemos juntas e lado a lado...
   Há personagens desconhecidos que adentram os meus sonhos, que caminham comigo e tomam  em suas mãos o meu rosto embevecido e o afagam. Acordo com a sensação de ternura desmedida e compartilhada, com a absoluta certeza de ter sido visitada por ser familiar e querido.
    Diante de uma praia, sem nunca ter estado ali, sou tomada pela impressão real de ter mergulhado naquelas águas sem receio, logo eu, que temo tanto o mar e suas ondas bravias.
    Já ouvi citações que juraria já tê-las ouvido, assim como amei pessoas com a convicção de estar amando-as novamente, e muitas vezes...
    Proferi frases como se me fossem ditadas e que me tiraram de incontáveis apuros.  Embrenhei-me em controvérsias, situações difíceis e dasafiadoras, confiante de que as superaria com suave proteção.
     Escrevi crônicas e poemas, como se uma força maior me ditasse todas as frases e todos os versos e rimas, bem baixinho ao meu ouvido, e, no final, trocássemos emoção mútua.
      Há sabores que antecipadamente os rejeito e outros que os pressinto agradáveis, sem jamais tê-los experimentado...
      Há músicas que envolvem-me em emotividade funda e reconhecida, enlevam-me ao infinito da imaginação, e, por inexplicável sintonia, emprestam-me asas para uma viagem fantástica, onde vou a lugares caseiros e ao encontro de pessoas que me saúdam e caminham comigo naturalmente identificadas. 
       Já me deparei com olhos fixos nos meus que eu apostaria tê-los vistos há muito e muito tempo...
        O que significariam todas essas viagens e personagens, compondo e misturando sonhos e realidades ao meu redor? Que nome eu ousaria dar às identificações rotineiras que brincam familiarizadas no meu cotidiano?
        E se eu não ousar defini-las, por simples temor de não ser exata, certamente um SER, infinitas vezes maior do que eu, sabiamente, já o terá feito...