quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Asas dos meus amores

Já fui borboleta quando amei ternamente,
espreguiçada nas orvalhadas
pétalas de uma flor macia,
acolhida no seu ventre.
Já fui cotovia e amei só,
e tão solitária engoli meu canto,
sem ser amada e sem ser amante.
Fui rouxinol toda exibida
e, envaidecida de mil amores,
fiz vassalos, trovadores
que me amaram do anoitecer
ao pôr do sol.

Já fui gralha agourenta
de lúgubre grunhar pungente,
doído por amar tanto,
esquecida e abandonada...
Mas hoje sou águia atenta!
Espio acima dos píncaros dos montes
a minha presa dócil e abatida...
 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Infértil

Vazio...
Que triste vazio
deve ser
a imensidão do nada.
Do amor avesso
ao brando e à  ternura
consentida.
Da mão endurecida
que desconhece os afagos.
Quanto amor malresolvido
e abortado
de quem nunca amou
e, infértil, nunca foi amado...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fim de Ano (crônica)

    O ano se aproxima do final e, inevitavelmente, o ser humano se dispõe a balanços interiores. Vai desfilando mês a mês, na memória, toda sua proposta eufórica empenhada para si mesmo.   Uma aquisição aqui, outra ali...  Comparando com o ano anterior,  ele constata que até mesmo a agenda ainda está nova,  e os compromissos  programados lhe parecem iguais... A rotina, que se estabelece no passar dos dias, pela pressa de viver e cumprir o que se firmou, transforma todas as cores, espraiadas na calma, num cinza indefinido, fincado na ansiedade.
Vive-se pulando etapas, pois são tantas metas para atingir. Daí, a urgência mascara a apoteose alcançada, porque a plenitude reside na serenidade.
     Catalogam-se aspirações, que não comportam no exíguo espaço do ser que tem pressa... No céu, mãos mágicas esculpem nuvens em esculturas fugazes, irrepetíveis e irreproduzidas, que os  observadores sensíveis de um tempo, que já vai bem distante, já não podem admirar, sugados que foram pela correria do dia a dia. O mar, cúmplice nessa habilidade em extasiar visões, nesse contexto de arte natural,  joga e recolhe suas águas, numa pintura infinita que se move e, assim, como as nuvens, é cada dia mais ignorado  pelos que correm...  Em nome de uma pressa incompreensível, desdenha-se a arte da natureza que nos cobre e nos cerca... Contabilizar o que se empenhou é tão fugidio como observar um caleidoscópio; tudo se mistura na sensação doída de quem não segurou a essência preestabelecida.
     Doze meses se passaram e outros tantos já estão ao alcance da nossa teimosia em  adiar possibilidades. E apenas porque  falta-nos obstinação para concretizá-las, damos-lhes o nome de desafios, que  justificam a tibieza da nossa coragem... Virar a página da agenda é mais ameno, não compete com noites insones...

     No tilintar das taças, os nossos sorrisos conterão todas as euforias convencionalmente programadas, e os fogos não dirão que é mentira... Estarão lá para confirmar alegrias
confraternizadas em comemorações, até  nos darmos conta de que mesmo eles, após dilacerarem o céu tantas vezes com suas luzes fantásticas, caem sobre o mar, aflito para apagar  ilusões encomendadas. Todavia, a frase calada, o gesto adiado, por um tempo que não  sabemos dimensionar, podem durar apenas um segundo, basta que nós, que tão bem nos conhecemos, os transformemos e façamos valer a pena... 

Aprendendo com os animais (crônica)

Existe quem os prefere ao ser humano.
Não sou tão radical assim, mas há uma certa verdade
permeando tal bandeira.
Os gatos exercem em mim um fascínio inexplicável.
Ou explicável, uma vez que temos ambos personalidades
que se confundem.
Também amo os cães. Mas creio que são dóceis demais, subservientes demais.
Acho que isso me desconforta um pouco.
Chame-os e eles o atenderão com o imediatismo dos servos romanos.
Todavia, chame um gatinho... Ele só o atenderá após todos os cochilos
e espreguiçar;  a diferença é que quando se aproxima,  traz com ele o mais doce
dos afagos e o mais terno dos dengos que um mortal possa receber.
Os bichanos não são afeitos a mudanças radicais,
isso inclui essencialmente o ambiente onde vivem.
Sofrerão grande aperto no peito,
se o seu dono tiver que partir, e optarão,
sem constrangimentos pelo ninho ao qual são extremamente ligados.
Uma atitude longe de significar indiferença ou ingratidão,
muito mais  incapacidade de adaptação ao novo...
Observações colhidas de uma longa convivência  com uma gatinha rejeitada e doente que recolhi da rua (amo os bichos de rua),
mas sobreviveu, iluminando a minha mais bonita emoção, para trocarmos,  por doze anos,
uma convivência deliciosamente cúmplice,
até ser acometida por cruel doença nos rins.
 Antecipava-se aos meus hábitos mais simples:
quando eu chegava em casa à noite, após exaustivo dia de trabalho no jornal, recebia-me aos bocejos, confidenciando-me a tarde de sonolência que desfrutara.
Logo que eu saía do banho,já a encontrava sobre o meu travesseiro:ela sabia que eu estaria ali, por um mínimo relax,
para retomar a rotina da casa.
Escutava-me com pequenos e seguidos menear de orelhas, solidários e reconfortantes,
acompanhados do consentido espremido dos olhos, onde descrevia uma fina fresta de comiseração.
E eu me sentia a mais feliz e compreendida
das criaturas.
Ainda sinto a sua falta...

Saber Envelhecer (crônica)


Saber envelhecer é olharmos no espelho sem medo do que vamos ver, porque, as rugas, a flacidez, os cabelos brancos já nos parecem, agora, muito mais uma conquista do que constrangedora punição. 
     Saber envelhecer é não nos envergonharmos por algum esquecimento, como data de aniversários, ou por trocarmos os nomes dos nossos filhos, parentes, amigos ou namorado...
      Saber envelhecer é conquistarmos o amor das pessoas pelo que somos, sem nos importar se impressionamos com o que temos e cuidar apenas de sermos compreendidos, sem  arrogância, autoridade e soberba, que machucam... Porque se aprende, a duras penas, envelhecendo, que tão-somente a brandura é bem-vinda, convincente e arrebanhadora...
       Envelhecer nos acumula de conhecimentos, mas só o envelhecer com nobreza nos traz sabedoria. E somos sábios, quando atentamos para o momento de silenciar, onde o diálogo está exaltado.
        Quando diante de quem não nos quer mais, não impomos, ameaçadoramente, a nossa presença, violando o espaço do outro.
         Quando não abandonamos nosso amor próprio, a nossa dignidade, apenas para contentar alguém, porque se aprende, envelhecendo, que cumplicidade se faz com harmonia de pensamentos, e ela é naturalmente solidária... 
          Somos sábios, quando nos damos conta de que sair da vida de alguém deve ser tão manso quanto chegar: sem alarde, sem questionamentos...
           Somos sábios, quando aprendemos a diferença entre o  por que não?, imperioso, e o porque sim, reflexivo.
            Somos sábios, quando descobrimos a beleza da solitude com alegria incomensurável na alma. Que estar só assusta apenas os atormentados, e nem sempre significa solidão. A solidão se reveste de amargura, autopiedade e arrependimento e estar só, de placidez, autoestima elevada e valorização, na medida certa, dos momentos vividos com qualidade.
              Somos sábios, acima de tudo, quando aprendemos a ser sós. E nunca está só quem está em paz consigo mesmo...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Transparente

Se acaso disfarço que não quero
estar ao seu lado,
sinto que desnuda toda a minha alma
e me deixa exposta e transparente.
Se desconverso e tomo certos ares
ausentes e imprecisos, 
aos seus olhos não passam
de ingênuos ardis, vagos
e pouco convincentes.
Se falseio um sorriso
indiferente ao seu chamado,
ignora o meu ar farsante,
pois bem sabe que finjo
inutilmente,
bem sabe que é só fingimento...

A Hora da Semeadura (crônica)


As pessoas não entram em nossas vidas casualmente, bem sei... Mas há aquelas com quem insistimos tanto para que se demorem um pouco mais, pelo nosso apego com elas, por todo o sentimento desprendido por elas que, talvez, com isso, acabamos por interferir no tempo em que na verdade teriam ao nosso lado, sem nos apercebermos que deter alguém não significa que o seu tempo conosco já não tenha findado. Chegado ao limite.
Tudo é cíclico, a forma da natureza, as plantas, as frutas, os alimentos, e  por que não os sentimentos...
Tudo obedece ao tempo de plantar e ao tempo de colher. Se plantarmos bem, a boa colheita não estará perdida... Mas como escolher o que plantarmos? E o que verdadeiramente pretendemos colher? Há que se atentar, na hora da semeadura, para a terra onde se deitarem as sementes...  Porque umas não vicejam em terras sem adubo, outras lhes bastam algumas regadas e, em qualquer solo, se reproduzirão; desafiam o sol causticante e as tempestades, com seu  vento devastador.
Então, tudo está nas mãos do semeador, na intenção que ele traz no coração, visando à sua colheita?
Possivelmente, há que ter o semeador tal envolvimento com a sua semente, que na hora da colheita ambos não se estranharão. Hão de se reconhecer em harmonia fértil: a mão boa colhendo a boa fruta.
Assim são as pessoas e os seus sentimentos. Por que quero plantar uma semente na minha terra, dedicar tanto tempo no cultivo e no regado dessa semente, se bem sei que o fruto que produz não sacia a minha fome, é estranho ao meu paladar? O que farei com esse fruto? Como conviverei com ele? Que espaço dar a ele no silo da minha vida? No abrigo do meu coração?
 E por que tirar da semente que escolhi, talvez embevecida com a visão do seu fruto, a chance de ser semeada por outras mãos que podem saborear melhor as suas delícias? Por que insistir com a semente que há de me angustiar e, inexoravelmente, me matar de fome?
Então, eu me pergunto: o que pretendo da semente que escolhi e persisto na minha semeadura, se ela revira-se sobre a terra, inquieta-se ante a minha regada e se demora a frutificar sob os cuidados que lhe dou? Terá sido culpa da inábil semeadora? Ou, quem sabe, ocorreu o arrependimento da semente...

 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sonhos são néctar

Sonho e não disfarço,
porque sonhar não me encolhe,
sonhar me encanta...
São sonhos fincados
e presos às asas

dos meus braços.
E se o pó da estrela
me traz delírios,
também são néctar
na minha garganta...
 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Versos em V

Verso invento,
versejo.
Vago e volteio,
velejo.
Velho vício
volta,
vai, vem,
vinho...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cai a Máscara

Neve, neve, neve.
Lua, lua, lua.
Leve, leve, leve.
Nua, nua, nua...
Perdida e solta ao vento,
despida mentira fria.
Talhada verdade dura.
Sua em tempo  lento
e breve, breve, breve...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mania de Inventar

Desenho o seu rosto
na fina transparência da imaginação.
Que mal há se ele desaparece,
quando o busco na vontade oculta
e fugidia dos que inventam?
Não o quero na demorada rotina
que sorve dos meus versos
a poesia.
Mas aqui e ali, ora sim ora não,
nas verdades inventadas 
da minha fantasia...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Rima Teimosa

Dizem que sou teimosa,
porque faço rimas.
Que nada!
Apenas sou poeta.
Teimosa é a minha poesia...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Clara Ousadia

VEM DE ONDE ESSA VORACIDADE
EM DECIFRAR-ME?
DE IR  MAIS ALÉM,
MUITO MAIS DO QUE EU DEVIA?
DE ROMPER MINHAS BARREIRAS,
COMO SE FOSSEM TÊNUES CRISTAIS?
REMEXO NO MEU ABISSAL, AFASTANDO
AS ALGAS QUE ME ENCOBRIAM
E ME VASCULHO,
NESSE MERGULHO ABUSADO
E FUNDO DE MIM.
QUANDO VENHO  À TONA
DA MINHA OUSADIA,
NÃO ME SURPREENDO COM A DESCOBERTA.
TUDO ESTAVA TÃO CLARO,
 EU É QUE NÃO VIA...

Asas Poéticas

RECONHEÇO OS MEUS LIMITES
E, CERTAMENTE, NÃO POSSO
BRIGAR COM ELES.
DISTINGO O QUE ESTÁ AO MEU ALCANCE
E SOU PRUDENTE PARA NÃO OUSAR
ALTURAS INALCANÇÁVEIS,
ONDE O MEU CLAMOR NÃO ECOA.
TEMO A IMENSIDÃO DESÉRTICA
QUE ME ESVAZIA...
PREFIRO OBSERVAR A BORBOLETA
QUE BAILA SONOLENTA
E O PÁSSARO QUE VOA...
POIS AS MINHAS ASAS SÃO APENAS POÉTICAS.
É PARA A DIREÇÃO QUE OS MEUS PÉS CAMINHAM
QUE EU DEVO ESTAR ATENTA......



Embriaguez da Alma

No cristal dessa taça de vinho,
estou à flor da pele...
À flor da pele eu não estaria,
se a flor não me revestisse,
se eu não tivesse pele...
O que seria da flor
se não fosse flor a minha pele?
Ah, sonho, não me arraste,
não me deixe lassa!
Brindo à vida que passa,
ao suspiro que  me resta
e ao tempo que me enlaça...
Se mal tenho pernas nesse torpor,
tropeço nas brumas esbranquiçadas
que me abraçam de mansinho:
ora nuvens ora ninhos.
Não recuo nem me detenho,
se tudo que avisto nessa taça de vinho
ou é o sono que me vence
ou é o cansaço,
  cansaço o que tenho...

Integrada

Sumo sumiços que assumo
repasso os passos tropeçados
retorno em atos que retomo
refaço laços desatados
adorno o beijo reatado
entoo o canto que me abriga
espalmo mãos entrelaçadas
volteio em abraços acolhidos

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mágicas Conchinhas

Fui ver o mar
na tarde de outono
que caía...
E  nas areias
que as águas umedeciam,
colhi duas conchinhas,
coladas, coladinhas.
Mágicas conchinhas.
Uma  tinha a sua imagem;
a outra, a minha...

Vigília Inútil

Teus olhos estão em toda parte
e me vigiam inutilmente.
Antes houvesse a vigília
de reter-me convincente
e eu não teria partido triste
e  tão tristemente,
que mesmo cansada
da dor de não ter-te,
eu quisera voltar e voltaria,
tão-somente para perder-te...

Tropeçando na Pressa (crônica)

De repente, é uma folha seca que o vento suspende e sai com ela bailando, dançarino natural da natureza que é... Num outro momento, são as nuvens fomadoras de imagens efêmeras, que mal me dão tempo de assimilá-las, identificando-as com as imagens que compõem o meu painel pessoal. Logo, já  tomam outras formas e outras mais, brincando com a minha imaginação e, propositalmente, desafiando-a. Imagens que não se repetem, não se retomam, não se recompõem, são obras de arte tênues, sem assinaturas visíveis.
Seus autores se deliciam em provocar os olhos e a fantasia de seus admiradores que sonham.
Quem caminha apressado, tentando ajustar sua vida aos compromissos do dia a dia, não se dá conta da galeria que desfila muito acima de sua cabeça, na velocidade flamejante.
Nenhuma obra de arte é produzida para os que correm, ela os ignora, porque esses emaranhados da  pressa não  podem captar a alma e a poesia, esculpidas na efemeridade...



Antiga Espera

A DENSA NOITE
QUE HÁ POUCO ME AFLIGIA
JÁ ERA.
LOGO, A MADRUGADA
DE BRUMAS RISONHAS
CAEM LEVES E MANSAS
SOBRE A LONGA ESPERA.
RECOLHO OS  MEUS SONHOS,
SACUDINDO A NÉVOA ANTIGA
QUE OS ENCOBRIA.
E SORRIO AO DIA QUE REVELA
E À ESPERANÇA QUE SE MOSTRA.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tempestade no Interior (conto)

As tempestades nas cidades grandes não nos atemorizam tanto
quanto as do interior. Talvez, porque, nas metrópoles, mal conseguimos enxergar os horizontes, devido aos enormes edifícios que nos oprimem e nos ofuscam a visão do céu, parecendo disputar com as estrelas um espaço ali. Daí, nem percebemos o prenúncio do mau tempo. Muitas vezes, só nos damos conta de sua chegada, por meio dos serviços meteorológicos divulgados pela internet, TV ou pelo rádio.
Nas cidades do interior, no entanto, que optam muito mais
pelas construções de casas e prédios mais baixos, oferecendo-nos horizontes mais limpos e abertos, percebemos o mau tempo ao primeiro sinal dos relâmpagos.
Lembro-me bem das tempestades que passávamos no interior (querido São José do Calçado), no nosso velho casarão. Numa época em que ele não era de laje, tão frágil me parecia...
E a tempestade chegava: ventania, trovoadas e relâmpagos
incessantes, acompanhados de chuva forte, de grossos pingos que, de tão vigorosos, repicavam nas calçadas e suspendiam, parecendo uma cortina-d'água que saía das entranhas da terra... Em poucos instantes, encharcavam becos, varandas e calçadas, correndo abundantemente ladeira abaixo, despejando o seu caudal por todas as ruas.
Não sei bem o que mais eu temia, que o furor do vento arrancasse todas as telhas, que cobriam a nossa velha casa ou que um raio nos fulminasse, impiedosamente.
Os trovões ecoavam junto à modesta cristaleira da vovó, que de
cristal reinava apenas, soberba e absoluta, uma antiquíssima compoteira, atritando entre xícaras, copos e pratos, assim como sacolejava todo o meu corpo, já bastante eriçado de medo. Apertava-me de encontro ao braço mais próximo de alguém e ali afundava a minha cabeça, na vã tentativa de abafar o som daquela orquestra dantesca, de regente invisível e implacavelmente mórbido.
Era comum, naquela época, ao menor prenúncio de tempestade,
as luzes se apagarem, o que agigantava o medo. O vento, não menos feroz do que os raios e trovões, soprava em falsete pelas frestas das janelas, deitando as chamas das velas e dos lampiões, fazendo vultos fantasmagóricos nas paredes, como se zombasse de nossa fragilidade e temor.
Quando nenhuma das orações que conhecíamos parecia
suficientemente poderosa para deter a tormenta, vovó acendia algumas folhas, já secas, que recebíamos no Domingo de Ramos: a Palha Benta, um ritual solene, de clemência máxima a Deus e praticado apenas em casos extremos. Aliado ao gesto de queimar a Palha Benta,  rezávamos as "Excelências". Uma oração cantada, ensinada pela minha bisavó (a Mãezinha) e passada a várias gerações, para só ser acionada após se recorrer a todas as preces.
Era linda... Tocava a alma, a sensibilidade e, acima de tudo, a fé.  Tempestade alguma jamais ousou desafiá-la:


"Primeira Excelência nesta rua vai passar.
Senhora da Soledade irá acompanhar.
Respondeu Virgem Maria: "Eu também vou ajudar"
Esta reza é reza santa tempestade há de abrandar..."
Rezávamos cantando, com todo o fervor, até a décima segunda
Excelência. Era suficiente...
Em seguida, raios, trovões e chuva forte arrefeciam e, juntos, desapareciam de braços dados no espaço.
Logo, nossos rostos, onde o medo deixara um rastro de palidez intensa, retomavam pouco a pouco a sua cor rósea natural.
As luzes se acendiam nas casas, som de vozes aqui e ali, o ruído de um carro ou outro passando... Era a vida que continuava lá fora e dentro de cada um de nós.

domingo, 21 de agosto de 2011

Amores e Dores


Os meus pés
pisam tantas pedrinhas...
umas redondas,
que eu chuto,
outras têm pontas,
machucam.
As que rolam
são os meus amores
as que me fincam,
as minhas dores...

sábado, 20 de agosto de 2011