quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Pássaro endoidecido

Se não queres a ternura que sinto,
o néctar da rara flor que te ofereço,
os  versos que emergem do meu absinto,
a exaltação, a reverência, o apreço,
o meu olhar que na perfeição te esculpe
e te molda na mais bela pintura...
Não te atormentes, não te culpes,
sentimento é inspiração pura,
não se submete, não pode ser moldado
no coração, não escolhe a quem amar,
é pássaro endoidecido e estabanado,
não escolhe aonde vai pousar...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Brinde à vida

É longa esta estrada percorrida.
Quanto ainda a posso alcançar?
Vislumbro o verde deste caminho,
quem me guia me protegerá
das dores que me dobraram,
da ferida que manchou meu linho...
E o amargo das folhas espremidas,
onde os meus pés doídos maceraram
bebo agora o doce vinho,
brindo à minha alma e à minha vida...



domingo, 15 de outubro de 2017

Que importa?


Que importa se é verdade
o amor que minto,
se me escapa quando o retenho
e se o tenho, fugidio o sinto?
Feito as folhas ralas onde me embrenho,
igual à chuva breve que logo é estio,
que importa se ele vai logo embora
e em silêncio só deixa o cheiro,
que se esvai no efêmero das horas,
se todo meu amor é passageiro...?



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Raízes

                           
                           
Onde estão minhas raízes, como sabê-las?
Aquelas que nos amarram, nos ficam à terra
de tradições envelhecidas, não hei de querê-las!
Tenho veladas saudades de presenças idas,
amores continuados, outros já esquecidos...
Se a minha vida segue, por vezes retornada,
onde estão minhas raízes desse tempo desconhecido?




terça-feira, 27 de junho de 2017

O que deixo levar

Parecia geada a chuva branca tão fina,
de vento esquivo, cortante e frio,
umedecendo telhados com a densa neblina,
esfumaçando as vidraças à espera do estio.

Também caudalosa, desabo em bueiro,
deixo levar tudo o que eu fantasio,
deixo levar, no furor do aguaceiro,
as dores sofridas e os meus dias sombrios.   





terça-feira, 6 de junho de 2017

A vida que vale


Coisas para dizer eram tantas,
mas ela não conseguia...
A voz travada e presa na garganta,
por longas horas e no resto do dia...

O olhar desolado, pasmo e frio
e a lágrima que também não caía.
Para que chorar por esse vazio,
se sempre foi assim, ela que não via?

Tudo passa, e a tormenta vai indo...
Talvez alguma cicatriz, antes ferida,
mas até ela um dia vai sumindo.
Fica a vida, a vida que vale ser vivida!