terça-feira, 29 de abril de 2014

Todas as luas

Quando criança pequenina,
saltitante no meio da rua,
ingênua, lépida e franzina,
eu queria brincar na lua.


Logo, a mocidade se insinua
à menina tonta e cantante,
agora errante, solta e nua,
sonha dormir com a lua.


Hoje, na idade que amadurece,
peço à lua que cúmplice aquiesce,
brincadeiras e sonhos antigos.
Do céu radiante ela desce,
se aconchega e dorme comigo...




segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cais e bolhas

                                       
       Os sentimentos são mensageiros do acaso ou da predestinação? Como ficar impassível diante dos olhares que nos conduzem à sedução arenosa, distinguindo tão-somente aqueles que nos captam a alma e nos entrelaçam sem teias? Como perscrutar as sutis diferenças entre os nós e os laços, sem cairmos nos ardis, se o embevecimento nos distrai?
      Há sentimentos que nascem aos poucos, assemelham-se a uma construção: trabalha-se a base, depois, tijolo por tijolo, portas e janelas para se abrirem ao ir e vir espontâneo, por fim, o teto, a cobertura que acolhe e protege do sol causticante, das intempéries e dos dias frios: são como cais, um porto seguro.
      Mas há sentimentos que nascem feito bolhas de sabão e, ao menor sopro, assomam-se cristalinas. Iridescentes, envolvem e levantam aos ares a uma viagem de infinitos horizontes possíveis. Assim como as translúcidas bolhas, não se sustentam aos atritos das planícies, das montanhas escamosas, nem da eventual ventania. Logo se encolhem. Sua íris, antes fulgorosa, cintilante, explode sobre os píncaros a que se elevou, desnorteada de êxtase.
       Tombam cabisbaixos os amantes e suas estruturas lânguidas, assistindo ao ruir de seus castelos fantasiosos.
        Enquanto o barco desliza manso e sereno ao seu porto, as bolhas multicoloridas sobrevoam velozes, rumo a lugar nenhum, alucinadamente, sem velas içadas.
         Suas âncoras são as alturas, seu destino, a traiçoeira direção dos ventos... 

terça-feira, 8 de abril de 2014

De volta



Devolva-me.
Traz-me de volta
ao que me resta,
logo serei inteira
a essa luz que arde
por entre frestas...
Cansei-me da metade
em desalento, prisioneira.
Solte-me ao vento,
feito poeira e pó.
Refaço-me no ar.
À minha maneira, 
sei viver só. 
Sou pássaro,
sei voar...