quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O pedestre é mais feliz (crônica)

                     
    Fui pedestre por muitos anos. Quanta penúria nos pontos dos ônibus, junto aos meios-fios das calçadas, a uma espera por eles que me parecia interminável. Nos dias de chuva, era uma dança absolutamente insana, pulando sobre poças-d'águas, driblando-as num torturante bailado. Na minha casual coreografia à Fred Astair e Ginger Rogers, "dançava" forçada na chuva, ziguezagueando entre os veículos, empunhando meu frágil guarda-chuva, mas muito longe de ter a magia rítmica dos famosos dançarinos hollyhoodianos. Não, eu não queria protagonizar o premiadíssimo filme "Dançando na chuva", faltam-me habilidade e competência nessa arte. Quisera apenas um ônibus simples, suficientemente acolhedor, que me levasse ao trabalho e, mais tarde, de volta para casa, com a minha integridade física a salvo. Todavia, na hora do rush, com as conduções superlotadas, isso era mesmo desafiador: gente que nos esbarra e nos roça sem e por querer e eu ali, entre asfixiada, enlatada e indignada, louca para dar um chega-pra-lá nos marmanjos espertalhões com caras de anjos. Tenho uma tia que, quando utilizava ônibus urbanos, já garantia sua proteção: um providencial alfinete, camuflado entre os dedos e, assim, de braços "casualmente" para trás, fazia pular longe os aproveitadores, com a mesma aura inocente que eles estampavam na hora dos roçados. Ah, se o alfinete pudesse rir, quão sonora seria sua gargalhada, vendo os marmanjos se acovardando diante de um minúsculo espetinho.
    Até que um dia consegui comprar o meu primeiro carro e entrei para o rol dos motoristas: adeus ônibus superlotados, adeus oportunistas dos agarros e roçados, adeus freadas bruscas de condutores mal-educados, adeus banho em poças-d'água... Despedia-me, assim, exultante e aliviada, de toda tortura a que um passageiro urbano é submetido. Via-me livre dela, enfim.
    Contudo, passados alguns anos como motorista, comecei a perceber que o trânsito, definitivamente, não foi feito para ele, mas para os pedestres. Eu era feliz e não sabia... Senão, reparem: o pedestre come pipoca e toma sorvete, fala ao celular, distraidamente, sem ser multado, vai a supermercados, bancos, shoppings, sem pagar estacionamento. O motorista, ao contrário, tem de dirigir absolutamente atento ao trânsito e dar ao pedestre toda e irrestrita prioridade. Paga IPVA, Licenciamento, pedágios, seguro disso e daquilo. Pedestre não é submetido a bafômetro, redutores de velocidade aqui e acolá, nem é vigiado por câmeras de mil olhos.
   Se um motorista atropelar um pedestre, mesmo que esse pedestre tenha avançado o sinal, é multado, preso, xingado, vilipendiado, cassado e até mesmo linchado. Pedestre, ao contrário, está livre de sanções, não há lei de trânsito para puni-lo, e é eternamente protegido da população. Alguém já viu um pedestre ser multado porque atravessou a rua com sinal vermelho pra ele? Mas, haja o que houver, o motorista nunca terá razão. E, agora, não bastassem as inúmeras faixas de pedestres espalhadas a cada cem metros por todos os bairros, criaram para eles a faixa vermelha, que se assemelha aos tapetes que se estendem às celebridades e estrelas para elas desfilarem garbosas e altaneiras, e, de preferência, sem pressa. E os motoristas ali, diante da faixa vermelha, atônitos e autômatos: o compromisso esperando, o trabalho ou um filho na escola esperando, um parente passando mal, esperando, e ele ali, também, esperando, esperando, meio robô, meio gente, o coração a mil de ansiedade, rezando para que, quando enfim passar todo mundo na faixa reverencial vermelha, nenhum maluco retardatário se jogue a sua frente, porque, senão, aí, o verdadeiro "Inferno" de Dante sairá do livro direto para a avenida e para a sua vida. O motorista, no mínimo, será punido por imprudência e desatenção.
    A providencial faixa vermelha dos pedestres eletriza e subjuga o motorista. Daí que, mal ele vislumbra esses tapetes vermelhos, seus olhos arregalam-se como se fossem pular das órbitas, e o coração, num salto alucinado e acrobático, ameaça-lhe arrebentar na caixa torácica. Deus o livre de atropelar um pedestre nessa aterrorizante faixa vermelha! Certamente, estará decretada a perda de sua razão e para sempre comprometido o direito de ele viver livremente.
    Depois que me tornei motorista, nunca mais pude acompanhar o florescer dos canteiros, com seus mosaicos coloridos nem os prédios de arquiteturas faraônicas e futuristas, todos eles me parecem já brotar prontos e gigantescos da terra, como se uma fada, magicamente, os tivesse colocado nas ruas, sem que eu me desse conta, para meu espanto e pesar.
    Por tudo isso, ando deixando meu carro na garagem e descobri-me mais leve, menos estressada, mais feliz. E tenho me deparado com imagens tocantes, que, como motorista, não me é dado o prazer de observar.
    Dia desses, caminhando, após descer de um ônibus, vi  jardineiros plantando uma árvore. E sorri sozinha, enternecida, quando observei, mais à frente, alguns homens que se movimentavam com a ornamentação de Natal da cidade.
     Sim, o pedestre é mais feliz...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Olhos distantes

HÁ OLHOS DISTANTES
QUE NUNCA ESTIVERAM COMIGO,
MAS ME ADIVINHAM O ENREDO,
DESENCONTROS, DESABRIGOS,
MEUS SONHOS NÃO REVELADOS
E AS ESPERANÇAS QUASE MORTAS,
AMONTOADAS NO MEU ABISMO.
HÁ OLHOS DE SONDAGEM
SONSA E SORRATEIRA,
QUE, MESMO FECHADOS,
DESPEM-ME INTEIRA,
COM VORAGEM ATREVIDA.
MAS, O QUE IMPORTA?
É SÓ A MINHA ALMA EXPOSTA,
APENAS ELA ESTÁ DESPIDA...

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Vulcão extinto


Amei-te...  
Era amor eu bem sabia.
Também era apego
e entrega...
Porém, quanta dor, quanto mal
o desassossego me espreitava.
Mas eu, cega e tonta,
tonta e enfeitiçada, nada via,
enquanto tu zombavas,
zombavas e rias,
rias de tudo e de nada,
porque, afinal,
nada era tudo o que sentias.
Mergulhaste fundo
nas minhas entranhas
e sugaste, com ironia,
o alento que  sustenta,
a razão que norteia,
enfim, todo o sentimento
que bombeia um coração.
Conseguiste transformar
em crostas lamacentas e frias 
as  lavas do  vulcão,
que  um dia, efervescentes,
pulsaram  nas minhas veias.