terça-feira, 19 de março de 2013

Rosas amarelas (crônica)

  Se você ama uma flor, não a colha, porque se você colhê-la, ela morre e deixa de ser o que você ama. Então, se você ama a flor, deixe-a estar. O amor não está na posse, mas na apreciação.  (Osho)




Herdei de minha avó a preferência por rosas amarelas. Dizia, com a sabedoria de uma cultivadora, que elas eram especiais. Passei alguns anos tentando descobrir a essência dessa especialidade, muito além de seus espinhos mais frágeis do que os das rosas de outras cores e de seu suavíssimo perfume. É necessário permitir-se um tempo entre você e a rosa amarela, se quiser descobri-la. É necessário, talvez, uma vida...
    Uma roseira de rosas amarelas parece a sonata que o músico ainda não compôs, o poema ainda não saído da inspiração do poeta e apenas um esboço na tela do pintor.
    Que amarelo fascinante tonaliza as rosas amarelas? Gotinhas do Sol? Bordas do arco-íris? Onde encontrar o parâmetro para a cor que a compõe? Traduz silêncio revelador e cúmplice, solidariedade abissal que aconchega, ternura mansa de mãe e maciez dos gatos angorás. Sem soberba e altivez, reina absoluta e espontaneamente sua beleza rara entre todas as rosas. Combina com sorrisos tímidos e sentimentos delicados. Não inspira ousadia, arrebatamento, mas posturas elegantemente contidas. Harmonizam-se com os vinhos brancos e os champanhes borbulhantes nas taças de cristais. Se eu as pudesse personalizar, diria que as rosas amarelas são fadas ou bailarinas, possuem passos leves, como se flutuassem, não gritam, mas sussurram, não seduzem nem apaixonam, mas cativam e encantam.
    Igual a minha avó, penso que nunca deveriam sair de suas roseiras para serem transformadas em buquês ou enfurnadas em jarras e arranjos por nenhum motivo.
         Flores têm alma e vida,
        devem nascer e morrer
        nos galhos das floreiras.
        Rosas de todas as cores
        nunca deveriam ser   

       arrancadas das roseiras.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Desdenho inútil

 
 
Que impasse essa dúvida
que dilacera  a alma e se incrusta
na  minha razão vazia.
Quero, mas sei que não devo
e desdenho com ferina ironia
o que me frustra o desejo.
E assim, entre disfarçadas
rimas, disparo o meu descaso,
inutilmente,
pois sou eu que tombo,
escorada nos meus versos,
sou eu que tombo,
atingida mortalmente.