segunda-feira, 28 de julho de 2014

Encoberta

Neste dia morno, sol com preguiça,
traz-me o vento o gosto,
de uma lembrança triste,
atiça a saudade que ainda insiste
e como um beijo sopra no meu rosto.
Essa névoa no céu amanhecendo,
na minha alma disfarça o que minto
e teimo viver escondendo,
encobrindo o que na verdade sinto... 









Cumplicidade


O meu amor tem o aconchego
de um ninho,
o calor do apego, a sintonia
e tudo é manso,
tudo é mansinho...
Tem o requinte do toque, 
a magia,
o encontro no cúmplice brinde
e o néctar de um raro vinho...













terça-feira, 22 de julho de 2014

Tão perto

Não tema a noite
que desce sua cortina,
turva sonhos e os põe de lado,
pois todo o açoite é breve e a dor amofina
só no tempo certo, só no tempo dado.


Corre a água da fonte cristalina,
deslizando sobre o lodo encoberto,
tão logo há de despir essa neblina,
tão logo o longe estará tão perto...



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Graças



Desta vida que Deus me abençoa
com olhos sãos e tão firmes passos,
a cascata que no meu ouvido ecoa
e as flores que colho nos meus braços.

Deu-me luz que sempre me alumia,
tanta fé, que se me curva em prece,
me levanta, me apruma e me guia,
em fervor que nunca esmorece...


(obrigada, meu Deus!)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nave sonhadora


Velejo pelo sonho que me espera,
grudada ao leme sonhadora.
Trago o sonho que eu quisera
e busco o sonho que se fora.


Se é aventura que me proponho,
se é loucura ou se  é sonho,
vou  inteira nesta nave,
vou inteira onde me ponho.
Nada me detém, nada me trave,
quando navego atrás de um sonho...












 

A luz dos livros

                         As pessoas quando têm brilho não passam, deixam o seu rastro de luz em nós ou em algum lugar. Assim são os bons livros. Suas páginas nos extasiam como borboletas endoidecidas no espaço, subindo e bailando, impregnando de fantasia e cores os olhos de quem as observa. Sim, há pessoas que não passam, há livros que não passam, porque nos deixam sua beleza essencial. E a beleza essencial não é transitória, é raiz que nos finca na alma. Não tenho mais comigo muitas pessoas que amei e se foram, deixaram-me, contudo, a sua luz. Também não tenho ao meu lado, ao alcance da minha saudade, alguns livros que também amei, ou porque os emprestei e não retornaram, mas com a minha aquiescência, ou  porque os doei...
              Com o passar dos anos, à chegada da maturidade, vamos nos libertando dos apegos materiais ou afetivos, aqueles que nos escravizam, que nos fazem sentir donos e possuidor de algo ou de alguém.  O envolvimento emocional com os livros me parece até maior, pois somos tomados por um apego tríplice: material, mental e espiritual-afetivo e, por isso, bem mais difícil de nos desapegarmos. Similarmente, no entanto, a maturidade também nos ensina o despojamento, que devemos passar adiante, e sempre, o condutor, a fonte daquilo que nos faz melhor, nos faz crescer. Fico imensuravelmente feliz, vendo os livros que eram meus contribuindo para que alguém  possa abrir as portas de sua espiritualidade e conhecimento, da mesma forma como fez comigo um dia. O importante é o que assimilei, o que contribuiu para a minha formação como ser humano, e está dentro de mim feito raiz. Guardar os livros só para nós, apegar-nos a eles como a uma teia, é privar alguém de experimentar uma riqueza que pode, e deve, ser partilhada. 
               Que voem de nós os livros, que voem feito borboletas bailarinas e pousem em  infinitas veredas sedentas do saber, e ali finquem também os seus ensinamentos, a sua luz, essa é para sempre!