quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mágicas Conchinhas

Fui ver o mar
na tarde de outono
que caía...
E  nas areias
que as águas umedeciam,
colhi duas conchinhas,
coladas, coladinhas.
Mágicas conchinhas.
Uma  tinha a sua imagem;
a outra, a minha...

Vigília Inútil

Teus olhos estão em toda parte
e me vigiam inutilmente.
Antes houvesse a vigília
de reter-me convincente
e eu não teria partido triste
e  tão tristemente,
que mesmo cansada
da dor de não ter-te,
eu quisera voltar e voltaria,
tão-somente para perder-te...

Tropeçando na Pressa (crônica)

De repente, é uma folha seca que o vento suspende e sai com ela bailando, dançarino natural da natureza que é... Num outro momento, são as nuvens fomadoras de imagens efêmeras, que mal me dão tempo de assimilá-las, identificando-as com as imagens que compõem o meu painel pessoal. Logo, já  tomam outras formas e outras mais, brincando com a minha imaginação e, propositalmente, desafiando-a. Imagens que não se repetem, não se retomam, não se recompõem, são obras de arte tênues, sem assinaturas visíveis.
Seus autores se deliciam em provocar os olhos e a fantasia de seus admiradores que sonham.
Quem caminha apressado, tentando ajustar sua vida aos compromissos do dia a dia, não se dá conta da galeria que desfila muito acima de sua cabeça, na velocidade flamejante.
Nenhuma obra de arte é produzida para os que correm, ela os ignora, porque esses emaranhados da  pressa não  podem captar a alma e a poesia, esculpidas na efemeridade...



Antiga Espera

A DENSA NOITE
QUE HÁ POUCO ME AFLIGIA
JÁ ERA.
LOGO, A MADRUGADA
DE BRUMAS RISONHAS
CAEM LEVES E MANSAS
SOBRE A LONGA ESPERA.
RECOLHO OS  MEUS SONHOS,
SACUDINDO A NÉVOA ANTIGA
QUE OS ENCOBRIA.
E SORRIO AO DIA QUE REVELA
E À ESPERANÇA QUE SE MOSTRA.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tempestade no Interior (conto)

As tempestades nas cidades grandes não nos atemorizam tanto
quanto as do interior. Talvez, porque, nas metrópoles, mal conseguimos enxergar os horizontes, devido aos enormes edifícios que nos oprimem e nos ofuscam a visão do céu, parecendo disputar com as estrelas um espaço ali. Daí, nem percebemos o prenúncio do mau tempo. Muitas vezes, só nos damos conta de sua chegada, por meio dos serviços meteorológicos divulgados pela internet, TV ou pelo rádio.
Nas cidades do interior, no entanto, que optam muito mais
pelas construções de casas e prédios mais baixos, oferecendo-nos horizontes mais limpos e abertos, percebemos o mau tempo ao primeiro sinal dos relâmpagos.
Lembro-me bem das tempestades que passávamos no interior (querido São José do Calçado), no nosso velho casarão. Numa época em que ele não era de laje, tão frágil me parecia...
E a tempestade chegava: ventania, trovoadas e relâmpagos
incessantes, acompanhados de chuva forte, de grossos pingos que, de tão vigorosos, repicavam nas calçadas e suspendiam, parecendo uma cortina-d'água que saía das entranhas da terra... Em poucos instantes, encharcavam becos, varandas e calçadas, correndo abundantemente ladeira abaixo, despejando o seu caudal por todas as ruas.
Não sei bem o que mais eu temia, que o furor do vento arrancasse todas as telhas, que cobriam a nossa velha casa ou que um raio nos fulminasse, impiedosamente.
Os trovões ecoavam junto à modesta cristaleira da vovó, que de
cristal reinava apenas, soberba e absoluta, uma antiquíssima compoteira, atritando entre xícaras, copos e pratos, assim como sacolejava todo o meu corpo, já bastante eriçado de medo. Apertava-me de encontro ao braço mais próximo de alguém e ali afundava a minha cabeça, na vã tentativa de abafar o som daquela orquestra dantesca, de regente invisível e implacavelmente mórbido.
Era comum, naquela época, ao menor prenúncio de tempestade,
as luzes se apagarem, o que agigantava o medo. O vento, não menos feroz do que os raios e trovões, soprava em falsete pelas frestas das janelas, deitando as chamas das velas e dos lampiões, fazendo vultos fantasmagóricos nas paredes, como se zombasse de nossa fragilidade e temor.
Quando nenhuma das orações que conhecíamos parecia
suficientemente poderosa para deter a tormenta, vovó acendia algumas folhas, já secas, que recebíamos no Domingo de Ramos: a Palha Benta, um ritual solene, de clemência máxima a Deus e praticado apenas em casos extremos. Aliado ao gesto de queimar a Palha Benta,  rezávamos as "Excelências". Uma oração cantada, ensinada pela minha bisavó (a Mãezinha) e passada a várias gerações, para só ser acionada após se recorrer a todas as preces.
Era linda... Tocava a alma, a sensibilidade e, acima de tudo, a fé.  Tempestade alguma jamais ousou desafiá-la:


"Primeira Excelência nesta rua vai passar.
Senhora da Soledade irá acompanhar.
Respondeu Virgem Maria: "Eu também vou ajudar"
Esta reza é reza santa tempestade há de abrandar..."
Rezávamos cantando, com todo o fervor, até a décima segunda
Excelência. Era suficiente...
Em seguida, raios, trovões e chuva forte arrefeciam e, juntos, desapareciam de braços dados no espaço.
Logo, nossos rostos, onde o medo deixara um rastro de palidez intensa, retomavam pouco a pouco a sua cor rósea natural.
As luzes se acendiam nas casas, som de vozes aqui e ali, o ruído de um carro ou outro passando... Era a vida que continuava lá fora e dentro de cada um de nós.

domingo, 21 de agosto de 2011

Amores e Dores


Os meus pés
pisam tantas pedrinhas...
umas redondas,
que eu chuto,
outras têm pontas,
machucam.
As que rolam
são os meus amores
as que me fincam,
as minhas dores...

sábado, 20 de agosto de 2011