segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Nas asas da saudade (Crônica)


    FUI DORMIR COM UMA SAUDADE  INSONE. ELA CHEGOU ASSIM, SORRATEIRA E SEM AVISAR.  AH,  INTROMETIDA E FORA DE HORA SAUDADE. TALVEZ POR JÁ ESTAR ACOSTUMADA À PESSOA QUE ELA VISITA,  FAZIA-SE INVASIVA E AUTORITÁRIA, ABUSADA E ESPAÇOSA  PELO MEU QUARTO ADENTRO E AFORA...
QUIS IGNORÁ-LA,  DAR DE OMBROS, MAS ELA, IMPERIOSA E DECIDIDA, CATUCAVA-ME COM AS IMAGENS MAIS TERNAS E INDIZÍVEIS DE MIM.
   - COVARDE - MURMURAVA-LHE COM SÚPLICAS INAUDÍVEIS E DESDENHADAS  -   ISSO SÃO HORAS DE VISITAR ALGUÉM, TÃO DE MADRUGADA?
     ELA  SE MANTINHA INSISTENTE, SOBERBA E PRESUNÇOSA.  CONFIANTE DE SI  E TÃO SENHORA DE MIM,  IA DESFILANDO VISÕES QUE SUSCITAVAM NA MINHA ALMA  SENTIMENTOS ADORMECIDOS. QUASE PODIA OUVIR O SEU RISO CERTEIRO, QUANDO EU SACUDIA A CABEÇA EM NEGATIVA, JOGANDO PARA OS LADOS OS MEUS REVOLTOS CABELOS.
  - VAMOS BRINCAR - PARECIA COCHICHAR-ME- BRINCAR DE LEMBRANÇAS...  FAREMOS UMA LONGA VIAGEM PELO TÚNEL DO TEMPO ATÉ A SUA INFÂNCIA .
    -  MINHA INFÂNCIA? RETRUQUEI SURPREENDIDA - AH, ELA ESTÁ TÃO DISTANTE...
    - NADA É TÃO LONGE E DISTANTE PARA A SAUDADE - RESPONDEU COM  COM AR ALTIVO  - CHEGAREMOS LÁ, ANTES DE VOCÊ PISCAR OS OLHOS DUAS VEZES.
    ENVOLVI  O TRAVESSEIRO  NA MINHA CABEÇA, COMO  ÚLTIMA TENTATIVA DE NÃO VÊ-LA, NÃO TÊ-LA, NÃO SENTI-LA. TUDO EM VÃO...
    - SUBA! - ORDENAVA CONVENCIDA E ZOMBETEIRA - SUBA ÀS MINHAS ASAS, DOU-LHE CARONA.
    COMO UM AUTÔMATO, DEIXEI-ME LEVANTAR PELOS ARES,  RUMO AO VENTO DAS LEMBRANÇAS AGUÇADAS E INEVITÁVEIS. FECHEI OS OLHOS E PERMITI-ME ENVOLVER PELO TÚNEL DO TEMPO, ONDE ENTRAMOS JUNTAS E ABRAÇADAS.
     ÍAMOS  TÃO VELOZMENTE,  QUE EU JÁ NÃO CONSEGUIA DISTINGUIR SE AQUELAS IMAGENS  VERTIGINOSAS ESTAVAM VERDADEIRAMENTE DISTANTES  OU BEM ALI, AO MEU ALCANCE, PARA QUE EU PUDESSE TOCÁ-LAS  E  NOVAMENTE VIVENCIÁ-LAS.
    RESOLVI DEIXAR-ME  CONDUZIR POR ESSA SAUDADE DOMINANTE E AVASSALADORA. NÃO TINHA FORÇAS SUFICIENTES PARA LUTAR COM ELA, QUE CADA VEZ MAIS CÚMPLICE SE APOSSAVA DE MIM.
    - VEJA! - INCITAVA-ME A OLHAR  ROSTOS E LUGARES - ESTÃO TODOS COM VOCÊ  PARA SEMPRE. TOME-OS NO SEU CORAÇÃO. POR QUE DIGLADIAR-SE COM O QUE A VENCERÁ? IMPOSSÍVEL DESLIGAR-SE DO QUE FOI ADOTADO PELA ALMA. DEIXE-SE POSSUIR PELA GRANDEZA DOS MOMENTOS CONSTRUÍDOS NA ESSÊNCIA DO BELO.
     APONTAVA-ME PERSONAGENS, PAISAGENS,  RECANTOS PARTILHADOS E OUTROS TÃO-SOMENTE MEUS...    SORRI UM SORRISO DE AQUIESCÊNCIA E ENTREGA. IMPREGNADA DE PASSADO E PRESENTE QUE SE MISTURAVAM E BAILAVAM COMIGO. E EU GRUDADA À CINTURA DA SAUDADE...
     VOAMOS SOBRE TELHADOS DE CASAS, CINEMA, COLÉGIOS E IGREJAS, E AINDA DEMOS UM RASANTE SOBRE CÓRREGOS E AÇUDES DE ÁGUAS CRISTALINAS. CORREMOS VELOZMENTE POR LADEIRAS ÍNGREMES, RUAS DE TERRA BATIDA E CEMITÉRIO DESATIVADO, ONDE, JUNTO COM OS MEUS AMIGUINHOS,  FAZÍAMOS ESCONDERIJOS INDEVASSÁVEIS.      PARAMOS, ENFIM, PARA DESCANSAR  NO QUINTAL DO CASARÃO DA VOVÓ, À SOMBRA DO  PÉ DE JAMBO, O MEU PREFERIDO.
    ENQUANTO TOMÁVAMOS FÔLEGO, PUDE VISLUMBRAR NA GARAGEM VAZIA, AINDA BALANÇANDO BEM LÁ NO ALTO, PENDURADO AO CAIBRO MAIOR, O TRAPÉZIO FEITO COM DOIS PEDAÇOS DE CORDA, AMARRADOS LADO A LADO À METADE DE UM PAU DE VASSOURA. MAIS ABAIXO, O PORÃO,  ABRIGO DE TANTOS TARZAN, JANE E CAUBÓI, COM SUAS MOCINHAS CAVALGANDO EM BAMBUS, ARRANCADOS, SEM A MENOR CERIMÔNIA, DAS CERCAS DO VIZINHO, PARA AJUDAR A COMPOR INFINITOS PERSONAGENS  DE NOSSOS TEATROS IMPROVISADOS E ÚNICOS.
     AGORA,  MINHA RELUTÂNCIA DAVA LUGAR A RISOS E MAIS RISOS MISTURADOS A LÁGRIMAS QUE DESCIAM MORNAS E FELIZES PELA MINHA BOCA.
     DE VOLTA À PENUMBRA DO MEU QUARTO, AINDA PUDE VER A SAUDADE ME ACENANDO E SE AFASTANDO LENTA E SATISFEITA, NA CERTEZA DO DEVER CUMPRIDO. ESTÁVAMOS AMBAS EXAUSTAS DA MÁGICA VIAGEM.
    ANTES DE FECHAR OS OLHOS, SENTI UM SUAVE BEIJO NOS MEUS CABELOS. SÓ NÃO CONSEGUI DESCOBRIR DE QUEM ERA, POIS ENTRE TANTOS ROSTOS VISITADOS, ENTRE TANTOS PERSONAGENS REASSUMIDOS, NEM MESMO A SAUDADE PÔDE DISTINGUIR...
ACORDEI COM AQUELA SAUDADE BOA DE SENTIR, QUE NOS FAZ LEVES E  SORRIR À TOA....

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eterna brandura

TÃO TARDE A NOITE...
LEVO PRA CASA
O SEMBLANTE SOMBRIO,
PORQUE NEM SEMPRE
É DE RISO
O MEU DIA..
SIGO SOZINHA, TACITURNA
E  A ALMA NEFASTA,
MAS SEI QUE  ME ESPERA ALGUÉM
FELIZ QUE ME SORRIA
E HÁ DE SERENIZAR O
FARDO NOTURNO QUE ME EMPASTA.
AO ME ABRIR A PORTA
AQUELES OLHOS
BRILHANDO DE ALEGRIA,
TODA MINHA FORÇA, ANTES
LASSA E MORTA, ME AGASALHA
NA  EUFORIA QUE SE ADVINHA.
E ME DOBRO
E ME ENCOLHO
NO PEITO QUE ME ANINHA...