terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tempestade no Interior (conto)

As tempestades nas cidades grandes não nos atemorizam tanto
quanto as do interior. Talvez, porque, nas metrópoles, mal conseguimos enxergar os horizontes, devido aos enormes edifícios que nos oprimem e nos ofuscam a visão do céu, parecendo disputar com as estrelas um espaço ali. Daí, nem percebemos o prenúncio do mau tempo. Muitas vezes, só nos damos conta de sua chegada, por meio dos serviços meteorológicos divulgados pela internet, TV ou pelo rádio.
Nas cidades do interior, no entanto, que optam muito mais
pelas construções de casas e prédios mais baixos, oferecendo-nos horizontes mais limpos e abertos, percebemos o mau tempo ao primeiro sinal dos relâmpagos.
Lembro-me bem das tempestades que passávamos no interior (querido São José do Calçado), no nosso velho casarão. Numa época em que ele não era de laje, tão frágil me parecia...
E a tempestade chegava: ventania, trovoadas e relâmpagos
incessantes, acompanhados de chuva forte, de grossos pingos que, de tão vigorosos, repicavam nas calçadas e suspendiam, parecendo uma cortina-d'água que saía das entranhas da terra... Em poucos instantes, encharcavam becos, varandas e calçadas, correndo abundantemente ladeira abaixo, despejando o seu caudal por todas as ruas.
Não sei bem o que mais eu temia, que o furor do vento arrancasse todas as telhas, que cobriam a nossa velha casa ou que um raio nos fulminasse, impiedosamente.
Os trovões ecoavam junto à modesta cristaleira da vovó, que de
cristal reinava apenas, soberba e absoluta, uma antiquíssima compoteira, atritando entre xícaras, copos e pratos, assim como sacolejava todo o meu corpo, já bastante eriçado de medo. Apertava-me de encontro ao braço mais próximo de alguém e ali afundava a minha cabeça, na vã tentativa de abafar o som daquela orquestra dantesca, de regente invisível e implacavelmente mórbido.
Era comum, naquela época, ao menor prenúncio de tempestade,
as luzes se apagarem, o que agigantava o medo. O vento, não menos feroz do que os raios e trovões, soprava em falsete pelas frestas das janelas, deitando as chamas das velas e dos lampiões, fazendo vultos fantasmagóricos nas paredes, como se zombasse de nossa fragilidade e temor.
Quando nenhuma das orações que conhecíamos parecia
suficientemente poderosa para deter a tormenta, vovó acendia algumas folhas, já secas, que recebíamos no Domingo de Ramos: a Palha Benta, um ritual solene, de clemência máxima a Deus e praticado apenas em casos extremos. Aliado ao gesto de queimar a Palha Benta,  rezávamos as "Excelências". Uma oração cantada, ensinada pela minha bisavó (a Mãezinha) e passada a várias gerações, para só ser acionada após se recorrer a todas as preces.
Era linda... Tocava a alma, a sensibilidade e, acima de tudo, a fé.  Tempestade alguma jamais ousou desafiá-la:


"Primeira Excelência nesta rua vai passar.
Senhora da Soledade irá acompanhar.
Respondeu Virgem Maria: "Eu também vou ajudar"
Esta reza é reza santa tempestade há de abrandar..."
Rezávamos cantando, com todo o fervor, até a décima segunda
Excelência. Era suficiente...
Em seguida, raios, trovões e chuva forte arrefeciam e, juntos, desapareciam de braços dados no espaço.
Logo, nossos rostos, onde o medo deixara um rastro de palidez intensa, retomavam pouco a pouco a sua cor rósea natural.
As luzes se acendiam nas casas, som de vozes aqui e ali, o ruído de um carro ou outro passando... Era a vida que continuava lá fora e dentro de cada um de nós.

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