quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sonhar-te

Por que me punes assim,
fugindo se tanto me queres?
Querendo-me e foges de mim,
punindo-me a ti mesmo feres.

Quase morro de tanto sonhar-te.
Quase morres por não ter o meu bem.
Não mates meu sonho de amar-te,
se o teu sonho é amar-me também.

domingo, 14 de junho de 2015

Sem viver

Não quero chorar eternamente
este pranto que me desatina doído.
Até quando vou me fingir ausente
de viver o que eu espero ter vivido?

Se vou te chamar tenho medo
e o teu nome sequer balbucio,
ele é o meu  maior segredo,
que somente ao silêncio  confio...

Se me queres

Sou uma concha a te esperar em vão,
no areal imenso do mar.
Como  eu me quisera em tuas mãos,
no teu peito, no teu olhar...
Eu te diria que nem a dor dessa espera
levou dos meus versos a esperança,
se de esperar eu me fizera...

Nas tuas mãos, todo sonho me alcança.
Acolhe-me, se me queres em tuas mãos,
não quero mais a espera de sonhar.
Acolhe-me, se me queres em tuas mãos,
se não me queres, devolva-me para o mar,
porque no mar sou estrela no chão...







domingo, 7 de junho de 2015

Olhar distante


Enganas se pensas que me vês
quando me olhas em pensamento.
Olhas-me apenas, sem saber
o que guardo fundo, aqui dentro.

Distante, estou difusa a te distrair,
onde sou sal, onde sou mar...
Distante, estou confusa e a confundir
o cristal do teu olhar.

Olhas-me somente, sem conhecer
as profundezas do meu sentir.
Olhas ausente o lago do meu ser,
mas distante, nunca vou me refletir...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Retomando a vida

  "O seu coração não é estrada para passeio de muitos. O seu coração é lugar que
  só fica quem faz por merecer".   Charlie Chaplin
                                                                                                 

            Como avaliar, de imediato, o merecimento de quem abrigamos no coração, se o ser humano, não raro, é dado a encantamentos, a arroubos sentimentais? Basta que nos dirija uma frase bonita, um olhar melodioso que vasculha nossos abissais, um gesto que encanta e sensibiliza. Como não enfurnar essa pessoa nos confins do nosso coração, com a velocidade do raio? Como não sequestrá-la com os braços da alma, com a nossa avidez de doçura? Como não detê-la ao nosso redor vazio, num mundo onde pessoas delicadas estão sumidas e banidas? Pessoas duras com elas mesmas e com o outro, que podem até ter sido mansas e benignas um dia, mas que a aridez das transformações as contagiou? Pessoas com o amargor e o pessimismo a norteá-las por todos os seus pontos cardeais e que vêm tropeçar em nós, por tantas vezes, tomando atalho em nossos caminhos e, mesmo sem nenhuma referência e credencial, vão arrombando os nossos corações. Até nos apercebermos, quanto estrago nos terão causado, e com a nossa plácida aquiescência... Se antes nos dispuséssemos a avaliar cada pessoa que abrigamos no coração, se a submetêssemos às nossas precauções sob um detector de mentiras afetivas que as impedisse de causar-nos as feridas profundas e demoradas... Mas o coração da gente é, às vezes, meio açambarcador, vai acolhendo, acolhendo, só muito mais tarde, já com as batidas trêmulas e penosas, verga-se à triagem tardia...
           Quem é sensível demais tem o coração de portas escancaradas que, tal como pote de mel, atrai abelhinhas inofensivas e borboletas coloridas, mas também marimbondos implacáveis. Quem tem bom coração é mesmo assim, por ele entra um, entra outro e, sem se dar conta, entra gente que não merece.
           Promovermos a varredura de pessoas que se instalaram dentro de nós feito erva-daninha, que dia a dia nos envelhecem e arruínam, até pode doer-nos um pouco, porque à dor também nos acostumamos, mas é necessário, para que retomemos a vida. Aí, recorremos novamente à nossa autoestima, ao nosso amor-próprio, para ajudar-nos a "pegar na vassoura".