terça-feira, 3 de março de 2015

O rastro purpúreo da solidariedade

         
    Há ainda espaço para a solidariedade, enquanto os seres apenas se entreolham e pasmam? Não quero tecer sobre o egoísmo, mas sobre a solidariedade esquecida, porque  o egoísmo aflora com facilidade, é para os detalhes da amplitude da solidariedade que ergo a minha pretensão. E há ainda dentro de mim, igualmente, algum resquício da ternura não estremecida, não violada que me acalente as palavras grávidas de atitudes? Que me empreste suas asas uma borboleta volitante, mensageira, e me alce com ela rumo ao outro, também sem violentá-lo, sem invadi-lo. Pousaríamos no seu olhar, ao redor da natureza que clama, mergulharíamos na sua misericórdia, porque sem ela tudo fenece, tudo se torna árido e os animais gritam, as águas enlodam sem reflexo, os seres frágeis se vergam abandonados, esquecidos. Não seria necessário nos determos tanto, bastaríamos a sintonia por algum tempo em junção, comungados.
       É a reflexão que tudo move e eterniza, que entrelaça mãos feito galhos erguidos para o céu. Embora, ao mesmo tempo, uma águia endoidecida dentro de mim se debata, prestes a explodir comigo dos  penhascos da tentação, da indolência e do desânimo, é nas asas da borboleta bailarina que o outro e eu pegaríamos carona, experimentando a simplicidade das flores e da maciez do mel que as farta, que as sacia. É com ela que daríamos acorde aos gestos e à consciência livre, pacificada. Mas a águia não se desprende, ronda com o seu bico ferino, abútreo, enquanto a frágil borboleta apenas acena o seu fascinante bailado com recheio de néctar e vida.
     Mesmo que a águia, inquieta e traiçoeira, nos abata com o seu voo soberbo e veloz, do mais alto rochedo ou do roseiral mais florido, a borboleta dançarina há de prevalecer, deixará escorrer a seiva colhida no seu rastro purpúreo...


              

Silencioso adeus


Queria dizer-lhe adeus,
nunca mais!
Mas não consigo, não sou capaz.
E para que despedida,
num  tempo que se perdeu,
se já não somos nós nessa partida,
se já estamos sós você e eu?