quinta-feira, 16 de julho de 2015

Jardim nos telhados

        Neste tempo do ecologicamente correto, onde privilegia-se o que não agride a natureza, preservam-se qualidade de vida e o bem-estar da humanidade, como seria bom que se cultivassem mais jardins: jardins em escolas, em praças públicas, jardins nas calçadas, à beira-mar, enfim, jardins por toda parte...

        Com as construções a cada dia mais verticalizadas, nossas paisagens estão, inevitavelmente, cinzas e nevoentas. As árvores, antes agasalhando espaços, frondosas, que floresciam coloridas na primavera, quase as podíamos alcançar de nossas janelas, na infinitude dos prédios que apontam para o céu, desafiando a gravidade. Hoje, essas árvores não passam de arbustos encolhidos para  não comprometerem as fiações elétricas das grandes cidades. Respiramos pouco verde, e as flores já não nos saúdam quando abrimos as nossas janelas: ou vemos outros edifícios ou nos deparamos apenas com telhados de casas, que ainda resistem, espremidas entre florestas de pedras, perfilando frias por ruas e avenidas.

         Fico imaginando, se pessoas que moram em casas passassem a cultivar jardins nos seus telhados. Abriríamos as nossas janelas para flores que nos sorririam, substituindo a paisagem de telhados limosos e sem vida.
       Jardim nos telhados nos pareceriam gigantescas cantoneiras a nos acionar todas as espécies de flores. Até pode ser uma ideia um tanto fantasiosa e inacessível ou inviável, tecnicamente, na opinião abalizada de algum engenheiro, arquiteto ou paisagista, alegando que jardim nos telhados pode comprometer as estruturas das casas, mas o idealista apenas lança sua ideia, sem se preocupar em adequá-la à realidade e, igual aos sonhadores, apenas investe em suas viagens fantásticas, talvez inverossímeis, avessas às formalidades, às convenções que ditam regras e padrões, simplesmente porque os sonhos não pedem permissão para se estabelecer...  Até que, por fim, surja um calculista que, aliando sua racionalidade à sensibilidade que não o tenha abandonado, consiga combinar sonho e idealismo à realidade e transformá-los num projeto possível. Daí, o que parecia utópico fica ao alcance e acessível. E nós, os sonhadores e idealistas, deixaremos de ser olhados como visionários inúteis das vãs filosofias.
      Que jardins possam ser plantados e cultivados nos telhados, tanto por pessoas sensíveis ou sonhadoras quanto por aquelas que ainda queiram preservar a humanização das paisagens, quando abrirem suas janelas de par em par...

sábado, 16 de maio de 2015

Gosto de estar só

         
       Gosto de estar só, vez ou outra... Não que eu me baste, egoísticamente, ou por me sentir incapaz de exercitar a convivência com o ser humano, mas pela necessidade ímpar de mergulhar no silêncio ao redor e dentro de mim, sobretudo para observar-me, com o cuidado de quem observa uma borboleta sugando o néctar da flor, ambas envolvidas, comprometidas com o melhor que possam extrair, ambas resguardando a seiva que as sustente verdadeiramente. 
       Gosto de estar só para construir uma reflexão isenta e desapegada de mim, para ouvir melhor o que digo, sem emitir uma única palavra, como num concerto de piano, onde só o acorde das notas, ora aveludado ora tangente, trouxesse ao palco o seu compositor, revelando-o... E nessa profunda observação despojada do meu interior, eu me surpreendesse com as minhas frágeis certezas.
       Gosto de estar só para polir-me, lapidar-me, para repassar todas as imagens ilusórias que atiçam minhas tolas vaidades, e alertar-me para a  confusão do brilho ardiloso, passageiro, que acende ambições arenosas, suga e contamina.
       Gosto de estar só para perceber-me despida e exposta, ingênua e perigosamente crédula.
       Gosto de estar só, porque é assim que me dou conta do momento inadiável de pousar com prudência e segurança as minhas asas, que, por tantas vezes, deixam-me aturdida em voos aventurados.
        Gosto de estar só para enxergar o cerne de mim, mas sei que, para isso, tenho que me predispor transparente. 
        Gosto de estar só, mas acima de tudo preciso, às vezes, estar só, porque somente eu posso alcançar-me tão fundo e ceder-me humilde e isenta às reflexões que me proponho e superar-me na cobrança, a que me dobro, com tal completude de conhecimento... 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Paris em mim


      Paris se veste aos poucos de primavera que, lenta e suavemente, vai colorindo os canteiros com flores sorridentes e verdejando árvores aqui e ali.  Árvores que, mesmo nuas e pálidas, eram belas esculturas esculpidas pelas mãos anônimas da natureza. Agora, vestidas, são pinturas impressionistas distraídas na paisagem. 
     Por onde caminho, seguem-me o vulto, o passado e a história. Estou impregnada da formosura que suave esbarra em mim. Adentro esse quadro ousadamente. Imiscuo-me nessa moldura que outrora ou em alguma vida me esperava e a quem eu tanto queria. Num instante, somos a simbiose da chegada e da partida...   Não temos muito tempo e a urgência me consome: o tempo fluídico dos amantes. Sou a ansiedade tocando o belo. Meus olhos anotam, minha alma fotografa e eu flutuo... De onde vem essa emoção que me estremece em soluços inaudíveis? Ou seriam sussurros dos personagens que me acompanham? 
     O Sena é uma avenida imensa de águas cristalinas. Perspicaz, o vento mergulha velozmente em suas profundezas e emerge lépido e provocante, borrifando os meus cabelos e impregnando-me do perfume das possíveis verbenas-rosas, incrustadas no muros que escoltam sua margem. Posso escutar o som dos pássaros misturado ao vozerio dos passantes, sem prescindir do esplendor que me rodeia.        Dos paralelepípedos pequeninos e mágicos de Montmartre à suntuosidade proposital de Versalhes, sigo absurdamente em êxtase, subindo e descendo escadarias, alçando torres, ajoelhada sob vitrais que se movem na minha imaginação e me entrelaçam.  
     O tempo escoa implacavelmente zombeteiro, digladiando com vontades e compromissos. Mas já não importa, e escolho ficar.
     Num instante, sou parte desse mosaico multicor e detenho-me no esboço dos vitrais, consentida, permitida, desenhada...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tudo a seu tempo



A espera nem sempre é agonia
e ansiedade.
Quando há certeza, ela é calmaria,
não velocidade.
E nada ao tempo antecede
sem a permissividade do destino,
nem o retrocede a vontade vã
ou os apelos do desatino...


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Onde estão os jardineiros?

                                              
     

     Se você é um postulante a jardineiro, saiba que essa intenção requer dom, advindo da sutileza, com horas conciliadoras entre a paciência e a leveza, exalando alma totalmente aflorada...
    Todavia, se você não possui afinidades com plantas, não ouse impor-lhes a sua presença, passe de largo... Não force os seus limites para não ser invasivo, porque plantas, muito mais do que água, precisam de quem as perceba de presença benfazeja. Do contrário, elas se sentirão preteridas, assoladas e, inexoravelmente, murchariam de tédio. E você seria resumido a um “mão imprestável de plantas” ou a um “mão ruim de plantas” o que, convenhamos, não é nada lisonjeiro.
     Plantas não se deixam enganar, possuem percepção aguçada do verdadeiro desprendimento humano, portanto, somente elas têm autoridade para alçá-lo ao posto pretendido, se elas vicejam e florescem por suas mãos, considere-se jardineiro...
    Jamais ouse pegar um regador para aguar plantas, sem antes predispor-se a essa tarefa, sem antes preparar-se mental e espiritualmente. Evoque suas melhores lembranças, cantarole manso e baixinho, de preferência as canções de ninar que ouvimos na infância.  
    Estabeleça com elas um ritual dulcificado e sereno, um monólogo sussurrante e acalentador, até que  sintonizem com suas boas intenções. Suavize-se, purifique-se: você está adentrando o espaço sagrado de seres que se comunicam por energia...
    Penso que é  absolutamente impossível um ser humano conseguir ser rude, inflexível e soberbo, após passar alguns instantes em contato com as plantas,  nenhum dirigente de nação ousaria promover um conflito mundial, nenhuma corte jurídica decretaria uma condenação de morte, nenhuma atrocidade seria cometida, nem se quebraria uma promessa, dívidas não seriam executadas, sorrisos não seriam contidos e nenhum temor sobressaltaria corações. Todos os braços se ergueriam na direção de outros braços, em abraços que se encontram, se comungam e se laçam.     

       Os jardins são tantos, mas é da falta de convictos jardineiros que as plantas andam ressentidas...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O perfume e o sabor que os tempos têm


      Gosto de caminhar quando o sol se põe, tenho a ousadia compartilhada de que a brisa se espreguiça e vem passear de mãos dadas comigo. Brisa cúmplice, desobrigada com tempo, razões ou amarras.
      Lá vamos nós: ela fazendo-se lenta, para acompanhar os meus passos e eu equilibrando-me, trôpega, para não desabar do seu ritmo. Sinto o seu sopro nos meus ombros que me alenta e refaz, como se me desse asas. O mesmo sopro que me traz o perfume e o sabor dos tempos.
        E vejo a menina correndo, cabelos tão lisos e loiros, soltos ao vento, subindo ladeiras, esgueirando-se por becos vizinhos, brincando de esconde-esconde, ao lado de uma criançada que grita e saltita, movida por uma felicidade sem fim e tão funda, que chega a doer as entranhas. Esse tempo tem o perfume de terra molhada e o sabor de baunilha.
        Caminhar com a brisa me parece tão hipnótico, que  já não sinto os meus pés, certamente devo estar voando. Mas para que eu haveria de querer pés, se é o tempo em curva que quero alcançar com as minhas asas? Agora, ouço uma música suave e danço quase sem perceber. Vejo-me sonhando com possibilidades inventadas e traduzidas só para mim, todas registradas em um diário que traz na capa o desenho de uma jovem, sentada em uma cadeira de balanço, na varanda, rodeada por lindo jardim florido. Pendente entre as páginas do diário, um pequenino cadeado dourado, com chave... Tão pequenino para guardar tantos segredos do coração. Esse tempo tem perfume de azaleias e o sabor de pitangas vermelhas.
        A brisa se faz mais rápida para me apontar as horas num relógio imperioso e indiferente, relógio que marca responsabilidades, trabalho e compromissos que parecem inadiáveis, relógio que se agiganta na parede branca, enquanto o tempo, doidamente, se encolhe e me deixa zonza entre a correria sufocante do transitar de carros, que nunca param, só quando a madrugada os silencia, observada pelas estrelas... Esse tempo tem o perfume do mar, sob nuvens magentas agasalhando o sol, e o sabor de ameixa-doce.
         Peço a brisa que se detenha um pouco. Olho ao redor e, por onde caminho, percebo árvores que me espraiam os seus galhos, como se me abraçassem, estendendo-me algumas frutas. Quem as plantou teria escolhido, aleatoriamente, o seu cultivo?
         Nesse instante, a brisa traz-me o perfume dos pinhos, abençoados pela clorofila teimosa. Ela me responde com o sabor duradouro de hortelã, que se prolonga na alma... 
       E reconheço, emocionada, o meu tempo de agora, o tempo justo da colheita.
 

terça-feira, 8 de julho de 2014

A luz dos livros

                         As pessoas quando têm brilho não passam, deixam o seu rastro de luz em nós ou em algum lugar. Assim são os bons livros... Suas páginas nos extasiam como borboletas endoidecidas no espaço, subindo e bailando, impregnando de fantasia e cores os olhos de quem as observa. Sim, há pessoas que não passam, há livros que não passam, porque nos deixam sua beleza essencial. E a beleza essencial não é transitória, é raiz que nos finca na alma. Não tenho mais comigo muitas pessoas que amei e se foram, deixaram-me, contudo, a sua luz. Também não tenho ao meu lado, ao alcance da minha saudade, alguns livros que muito amei, ou porque os emprestei e não retornaram, alguns com a minha aquiescência, ou  porque os doei...
              Com o passar dos anos, à chegada da maturidade, vamos nos libertando dos apegos materiais ou afetivos, aqueles que nos escravizam, que nos fazem sentir donos e possuidor de algo ou de alguém.  O envolvimento emocional com os livros me parece até maior, pois somos tomados por um apego tríplice: material, mental e espiritual-afetivo e, por isso, bem mais difícil de nos desapegarmos. Similarmente, no entanto, a maturidade também nos ensina o despojamento, que devemos passar adiante e sempre, o condutor, a fonte daquilo que nos faz melhor, nos faz crescer. Fico imensuravelmente feliz, quando vejo livros que eram meus contribuindo para que alguém  possa abrir as portas de sua espiritualidade e conhecimento, da mesma forma como fez comigo um dia. O importante é o que assimilei, o que contribuiu para a minha formação como ser humano, e está dentro de mim feito raiz. Guardar os livros só para nós, apegar-nos a eles como a uma teia, é privar alguém de experimentar uma riqueza que pode, e deve, ser partilhada. 
               Que voem de nós os livros, que voem feito borboletas bailarinas e pousem em  infinitas veredas sedentas do saber, e ali finquem também os seus ensinamentos, a sua luz, porque essa é para sempre!