quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Tempo

Sempre esperei do tempo
no tempo por onde andei,
o tempo que se adivinha
e que hoje já não sei...
No tempo que eu creio,
esperei pelo que vinha,
no tempo que não veio....
    





sábado, 30 de janeiro de 2016

Carona em carro de bois (conto infanto-juvenil)

                   
         Não tínhamos skate, patins, sequer uma bicicleta velha, mas tínhamos o carro de bois...
        Antigamente, no interior, poucas casas não possuíam um fogão à lenha. E as lenhas eram transportadas em carros de bois, a nossa inesquecível aventura mambembe. Uma aventura perigosa, pois ao tentarmos subir afoitamente para a carroça, pois fazíamos essa estripulia com ela em movimento, corríamos o risco de nos esborracharmos no chão, ou rolarmos ladeira abaixo, feito uma tora desgovernada. 
         Devido ao iminente perigo a que nos expúnhamos, éramos sempre ameaçados de uma boa surra, caso ousássemos a tamanha desobediência. Daí que nos aventurávamos às escondidas, obviamente com a cumplicidade de toda a criançada. Ainda tínhamos de nos esconder do carreiro, pois era dele a responsabilidade, se algum acidente nos acontecesse.
Prevenido, depois de esvaziada a carroça, ele lançava um olhar vasculhador e meticuloso, para todos os lados, ao encalço de alguma criança que lhe pudesse escapar de sua prudente vigília. 
         Pequeninos bandidos, fazíamos tocaia, driblando as balas do olhar do carreiro, que passavam raspando sobre nossas cabeças, enquanto nos agachávamos atrás de velhas catacumbas, fincadas  num terreno baldio, que segundo moradores mais antigos, bem ali, em tempos distantes, fora o cemitério da cidade.
         O cenário era perfeito para tanto medo e emoção: medo da catacumba, medo consciente de estarmos transgredindo ordens e negligenciando obediências, onde uma surra pendente nos aguardava; e escolhíamos de vez a emoção. 
        O remorso e a ousadia oscilavam na exposição daquela aventura infantil.
        - Oa! Oa! -  gritava o carreiro para os bois. O grito que esperávamos ansiosamente. Ele nos soava como um canto, um acorde, uma senha... 
          Os bois começavam a se movimentar, e lá ia a carroça atrás, requebrando desengonçada. E lá íamos nós, com a rapidez da ventania, arremessando-nos para dentro dela. Um puxava o outro, e nos acomodávamos, coração aos pulos. No lugar de toras úmidas e pesadas, a carroça abrigava, agora, um bando de crianças engasgadas de riso, o riso farto da traquinagem. Impossível detê-lo. 
         Vez ou outra, sentávamos na beirada da carroça e ousávamos deixar nossas pernas balançando para fora, volitando ao vento, como se marcasse o ritmo do nosso coração endoidecido de felicidade. 
           Embalados pelo ranger das rodas de madeira nos paralelepípedos, fazíamos daquela velha carroça um perfeito set de filmagem, especial e particular. Dirigíamos nossas próprias falas, com ousadia, inventividade e os textos naturalmente bem-decorados, porque o script éramos nós, não precisava de cortes nem edição. Quem o viveu não editaria...
            Nossos olhos faziam as tomadas mais perfeitas e fotografavam por conta da emoção.
           E uma película mágica, invisível, ia movimentando uma câmera imaginária.
           Movimentando, movimentando...

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Quando sou intensa


     Sou intensa, quando saio do meu eu absoluto e egoísta e lanço um olhar atento, ao meu redor, na busca harmoniosa com o outro.
      Sou  intensa, quando não me deixo abater em conformismos e  me exponho ousada à luta
       Sou intensa, quando fico brava com as injustiças e me impulsiono irascível para combatê-las. 
      Sou intensa, quando o meu fervor se sobrepõe à minha descrença.
      Sou intensa, quando sei que posso minimizar a dor, recorrendo às minhas forças nascidas de um otimismo que exercito.
      Sou intensa, quando não nego os meus medos e aciono a minha coragem.  
      Sou intensa, quando erro e quando peço perdão. 
      Sou intensa, quando não retroajo no meu determinismo e nas minhas convicções.
     Sou intensa na minha humildade.
     Sou intensa nos meus sonhos: voo sempre bem alto e bem longe... Mas sou intensa quando pouso os meus pés na realidade que me espera.
     Sou intensa, quando tenho que convencer o irredutível. 
       Sou intensa, quando derrotada e vencida.
     Sou intensa, quando comemoro uma conquista, passeando minhas reflexões sobre as dificuldades em alcançá-la.
     Sou intensa, quando ferida e intensa quando curada.
      Sou intensa quando oro, quando agradeço, quando faço escolhas, quando me entrego e me doo com alma a alguém.
     Sou intensa em tudo a que me disponho, porque a superficialidade me afoga, é a profundidade que me aconchega.








Ponte florida sobre abismos



     Não há idade para a emoção afetiva, mas quantas pessoas vivem à beira de seus abismos frios e inacessíveis, sem se permitir o amor. Trancafiadas em si mesmas, envelhecem por dentro, enquanto a vida em seus rostos clama viver. Réstia de luz que insiste passar sob seus olhos.
     O tempo escoa...  E a cada dia se faz menor, transcorrendo em direção contrária à letargia de quem não se permite amar. E permitir-se amar não é propor-se aventuras efêmeras que farão com que todos os relógios pareçam correr ainda mais vertiginosos. Também não é abraçar sonhos irrefreáveis e sem direção que podem desabar sobre rochas.
     É possível sonhar sentindo o chão sob os pés. É possível sonhar e consentir-se um amor bonito que bater à porta. A vida pode ser curta, mas não é se privando vivenciar um sentimento que ela há de parecer mais longa e prazerosa. Tão-pouco, não é percorrer os caminhos que faltam, dando lugar unicamente a esparsos amores, interrompidos ou malcomeçados.
      Sem desafiarmos limites e quebrarmos grilhões que nos aprisionam, roubaremos de nós a chance de vida.
      Permitir-se é erguer uma ponte florida sobre os abismos que cavamos ao nosso redor e experimentarmos ser felizes. Pode dar certo, pode valer a pena...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A maturidade



           O passar dos anos presenteia-nos com a maturidade, que é sempre sinônimo de lucidez, até nos permite sermos insensatos, vez ou outra, sem comprometer toda a boa bagagem que acumulamos na trajetória percorrida, porque a maturidade jamais dará longo abrigo à insensatez.           
           A maturidade nos traz uma segurança inexplicável em todos os atos que praticamos, mesmo aqueles que, mais tarde, possamos considerá-los precipitados, mas que teriam, sem dúvida, efeitos avassaladores, se os tivéssemos cometidos no arroubo da juventude. 
           A maturidade, quando chega, não faz alarde, contudo, é  perceptível nos detalhes dos nossos gestos, nas atitudes, na forma como nos dirigimos às pessoas, nas nossas solicitudes, no nosso olhar perscrutador, nos pequenos e grandes risos, mesmo aqueles disfarçados, brincando nos lábios. 
         A maturidade faz-nos otimistas de insofismáveis convicções, sem que pareçamos arrogantes e soberbos. Quando solicitados a intervir em questões conturbadas e ardilosas, ela nos emprestará argumentos naturalmente sábios. 
          Há dentro de nós, pessoas maduras, uma sensação de êxtase por termos chegado plenos à idade que nem todos alcançam, alguns por ter sido levados desta vida jovens demais, cumprindo os desígnios de Deus,  outros, porque a preguiça e a irresponsabilidade embotaram-lhes a mente, e ali, no limbo do crescimento, vagam na imaturidade. 
          A maturidade coloca uma bússola invisível em nossos passos e nos direciona com perfeita exatidão por onde seguirmos e um infalível relógio em nossos bolsos, que não nos permite demorar onde quer que seja, ou com quem  quer que seja, um segundo além do que a prudência determina, ao contrário, reveste nossos relacionamentos de clarividências e mais saudáveis, sem possessões passionais, porque eleva a nossa autoestima e sacode o nosso amor-próprio ao nível justo da ponderação. 
          Percebe-se a maturidade em uma pessoa até no modo como ela se recolhe em sua dor...
         A maturidade apura nossos gostos e nos faz seletivos, ao mesmo tempo, confere-nos profunda segurança em afirmarmos preferências e convicções, sem nos importarmos em impressionar uns ou contrariar e decepcionar outros, porque maturidade é, precisamente, liberdade de ser, com  amplitude e autossatisfação que compraz, irradia e inspira.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tudo passa


Tudo passa, é certo…
O fervor ao amor mais querido,
jurado e prometido
passa, no fulgor do entusiasmo.
Tudo passa no percurso da vida:
os percalços, as dores sentidas,
o tempo ido os distrai.
Mesmo a saudade julgada
infinda, a cada dia se esvai
no pensamento...
Tudo se desfaz na efemeridade do segundo
e na velocidade do vento,
o que se pensa, o que se diz e o que se faz.
Tudo passa,
na vã eternidade do momento...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Jardim nos telhados

        Neste tempo do ecologicamente correto, onde privilegia-se o que não agride a natureza, preservam-se qualidade de vida e o bem-estar da humanidade, como seria bom que se cultivassem mais jardins: jardins em escolas, em praças públicas, jardins nas calçadas, à beira-mar, enfim, jardins por toda parte...

        Com as construções a cada dia mais verticalizadas, nossas paisagens estão, inevitavelmente, cinzas e nevoentas. As árvores, antes agasalhando espaços, frondosas, que floresciam coloridas na primavera, quase as podíamos alcançar de nossas janelas, na infinitude dos prédios que apontam para o céu, desafiando a gravidade. Hoje, essas árvores não passam de arbustos encolhidos para  não comprometerem as fiações elétricas das grandes cidades. Respiramos pouco verde, e as flores já não nos saúdam quando abrimos as nossas janelas: ou vemos outros edifícios ou nos deparamos apenas com telhados de casas, que ainda resistem, espremidas entre florestas de pedras, perfilando frias por ruas e avenidas.

         Fico imaginando, se pessoas que moram em casas passassem a cultivar jardins nos seus telhados. Abriríamos as nossas janelas para flores que nos sorririam, substituindo a paisagem de telhados limosos e sem vida.
       Jardim nos telhados nos pareceriam gigantescas cantoneiras a nos acionar todas as espécies de flores. Até pode ser uma ideia um tanto fantasiosa e inacessível ou inviável, tecnicamente, na opinião abalizada de algum engenheiro, arquiteto ou paisagista, alegando que jardim nos telhados pode comprometer as estruturas das casas, mas o idealista apenas lança sua ideia, sem se preocupar em adequá-la à realidade e, igual aos sonhadores, apenas investe em suas viagens fantásticas, talvez inverossímeis, avessas às formalidades, às convenções que ditam regras e padrões, simplesmente porque os sonhos não pedem permissão para se estabelecer...  Até que, por fim, surja um calculista que, aliando sua racionalidade à sensibilidade que não o tenha abandonado, consiga combinar sonho e idealismo à realidade e transformá-los num projeto possível. Daí, o que parecia utópico fica ao alcance e acessível. E nós, os sonhadores e idealistas, deixaremos de ser olhados como visionários inúteis das vãs filosofias.
      Que jardins possam ser plantados e cultivados nos telhados, tanto por pessoas sensíveis ou sonhadoras quanto por aquelas que ainda queiram preservar a humanização das paisagens, quando abrirem suas janelas de par em par...

sábado, 16 de maio de 2015

Gosto de estar só

         
       Gosto de estar só, vez ou outra... Não que eu me baste, egoísticamente, ou por me sentir incapaz de exercitar a convivência com o ser humano, mas pela necessidade ímpar de mergulhar no silêncio ao redor e dentro de mim, sobretudo para observar-me, com o cuidado de quem observa uma borboleta sugando o néctar da flor, ambas envolvidas, comprometidas com o melhor que possam extrair, ambas resguardando a seiva que as sustente verdadeiramente. 
       Gosto de estar só para construir uma reflexão isenta e desapegada de mim, para ouvir melhor o que digo, sem emitir uma única palavra, como num concerto de piano, onde só o acorde das notas, ora aveludado ora tangente, trouxesse ao palco o seu compositor, revelando-o... E nessa profunda observação despojada do meu interior, eu me surpreendesse com as minhas frágeis certezas.
       Gosto de estar só para polir-me, lapidar-me, para repassar todas as imagens ilusórias que atiçam minhas tolas vaidades, e alertar-me para a  confusão do brilho ardiloso, passageiro, que acende ambições arenosas, suga e contamina.
       Gosto de estar só para perceber-me despida e exposta, ingênua e perigosamente crédula.
       Gosto de estar só, porque é assim que me dou conta do momento inadiável de pousar com prudência e segurança as minhas asas, que, por tantas vezes, deixam-me aturdida em voos aventurados.
        Gosto de estar só para enxergar o cerne de mim, mas sei que, para isso, tenho que me predispor transparente. 
        Gosto de estar só, mas acima de tudo preciso, às vezes, estar só, porque somente eu posso alcançar-me tão fundo e ceder-me humilde e isenta às reflexões que me proponho e superar-me na cobrança, a que me dobro, com tal completude de conhecimento... 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Paris em mim


      Paris se veste aos poucos de primavera que, lenta e suavemente, vai colorindo os canteiros com flores sorridentes e verdejando árvores aqui e ali.  Árvores que, mesmo nuas e pálidas, eram belas esculturas esculpidas pelas mãos anônimas da natureza. Agora, vestidas, são pinturas impressionistas distraídas na paisagem. 
     Por onde caminho, seguem-me o vulto, o passado e a história. Estou impregnada da formosura que suave esbarra em mim. Adentro esse quadro ousadamente. Imiscuo-me nessa moldura que outrora ou em alguma vida me esperava e a quem eu tanto queria. Num instante, somos a simbiose da chegada e da partida...   Não temos muito tempo e a urgência me consome: o tempo fluídico dos amantes. Sou a ansiedade tocando o belo. Meus olhos anotam, minha alma fotografa e eu flutuo... De onde vem essa emoção que me estremece em soluços inaudíveis? Ou seriam sussurros dos personagens que me acompanham? 
     O Sena é uma avenida imensa de águas cristalinas. Perspicaz, o vento mergulha velozmente em suas profundezas e emerge lépido e provocante, borrifando os meus cabelos e impregnando-me do perfume das possíveis verbenas-rosas, incrustadas no muros que escoltam sua margem. Posso escutar o som dos pássaros misturado ao vozerio dos passantes, sem prescindir do esplendor que me rodeia.        Dos paralelepípedos pequeninos e mágicos de Montmartre à suntuosidade proposital de Versalhes, sigo absurdamente em êxtase, subindo e descendo escadarias, alçando torres, ajoelhada sob vitrais que se movem na minha imaginação e me entrelaçam.  
     O tempo escoa implacavelmente zombeteiro, digladiando com vontades e compromissos. Mas já não importa, e escolho ficar.
     Num instante, sou parte desse mosaico multicor e detenho-me no esboço dos vitrais, consentida, permitida, desenhada...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tudo a seu tempo



A espera nem sempre é agonia
e ansiedade.
Quando há certeza, ela é calmaria,
não velocidade.
E nada ao tempo antecede
sem a permissividade do destino,
nem o retrocede a vontade vã
ou os apelos do desatino...


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Onde estão os jardineiros?

                                              
     

     Se você é um postulante a jardineiro, saiba que essa intenção requer dom, advindo da sutileza, com horas conciliadoras entre a paciência e a leveza, exalando alma totalmente aflorada...
    Todavia, se você não possui afinidades com plantas, não ouse impor-lhes a sua presença, passe de largo... Não force os seus limites para não ser invasivo, porque plantas, muito mais do que água, precisam de quem as perceba de presença benfazeja. Do contrário, elas se sentirão preteridas, assoladas e, inexoravelmente, murchariam de tédio. E você seria resumido a um “mão imprestável de plantas” ou a um “mão ruim de plantas” o que, convenhamos, não é nada lisonjeiro.
     Plantas não se deixam enganar, possuem percepção aguçada do verdadeiro desprendimento humano, portanto, somente elas têm autoridade para alçá-lo ao posto pretendido, se elas vicejam e florescem por suas mãos, considere-se jardineiro...
    Jamais ouse pegar um regador para aguar plantas, sem antes predispor-se a essa tarefa, sem antes preparar-se mental e espiritualmente. Evoque suas melhores lembranças, cantarole manso e baixinho, de preferência as canções de ninar que ouvimos na infância.  
    Estabeleça com elas um ritual dulcificado e sereno, um monólogo sussurrante e acalentador, até que  sintonizem com suas boas intenções. Suavize-se, purifique-se: você está adentrando o espaço sagrado de seres que se comunicam por energia...
    Penso que é  absolutamente impossível um ser humano conseguir ser rude, inflexível e soberbo, após passar alguns instantes em contato com as plantas,  nenhum dirigente de nação ousaria promover um conflito mundial, nenhuma corte jurídica decretaria uma condenação de morte, nenhuma atrocidade seria cometida, nem se quebraria uma promessa, dívidas não seriam executadas, sorrisos não seriam contidos e nenhum temor sobressaltaria corações. Todos os braços se ergueriam na direção de outros braços, em abraços que se encontram, se comungam e se laçam.     

       Os jardins são tantos, mas é da falta de convictos jardineiros que as plantas andam ressentidas...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O perfume e o sabor que os tempos têm


      Gosto de caminhar quando o sol se põe, tenho a ousadia compartilhada de que a brisa se espreguiça e vem passear de mãos dadas comigo. Brisa cúmplice, desobrigada com tempo, razões ou amarras.
      Lá vamos nós: ela fazendo-se lenta, para acompanhar os meus passos e eu equilibrando-me, trôpega, para não desabar do seu ritmo. Sinto o seu sopro nos meus ombros que me alenta e refaz, como se me desse asas. O mesmo sopro que me traz o perfume e o sabor dos tempos.
        E vejo a menina correndo, cabelos tão lisos e loiros, soltos ao vento, subindo ladeiras, esgueirando-se por becos vizinhos, brincando de esconde-esconde, ao lado de uma criançada que grita e saltita, movida por uma felicidade sem fim e tão funda, que chega a doer as entranhas. Esse tempo tem o perfume de terra molhada e o sabor de baunilha.
        Caminhar com a brisa me parece tão hipnótico, que  já não sinto os meus pés, certamente devo estar voando. Mas para que eu haveria de querer pés, se é o tempo em curva que quero alcançar com as minhas asas? Agora, ouço uma música suave e danço quase sem perceber. Vejo-me sonhando com possibilidades inventadas e traduzidas só para mim, todas registradas em um diário que traz na capa o desenho de uma jovem, sentada em uma cadeira de balanço, na varanda, rodeada por lindo jardim florido. Pendente entre as páginas do diário, um pequenino cadeado dourado, com chave... Tão pequenino para guardar tantos segredos do coração. Esse tempo tem perfume de azaleias e o sabor de pitangas vermelhas.
        A brisa se faz mais rápida para me apontar as horas num relógio imperioso e indiferente, relógio que marca responsabilidades, trabalho e compromissos que parecem inadiáveis, relógio que se agiganta na parede branca, enquanto o tempo, doidamente, se encolhe e me deixa zonza entre a correria sufocante do transitar de carros, que nunca param, só quando a madrugada os silencia, observada pelas estrelas... Esse tempo tem o perfume do mar, sob nuvens magentas agasalhando o sol, e o sabor de ameixa-doce.
         Peço a brisa que se detenha um pouco. Olho ao redor e, por onde caminho, percebo árvores que me espraiam os seus galhos, como se me abraçassem, estendendo-me algumas frutas. Quem as plantou teria escolhido, aleatoriamente, o seu cultivo?
         Nesse instante, a brisa traz-me o perfume dos pinhos, abençoados pela clorofila teimosa. Ela me responde com o sabor duradouro de hortelã, que se prolonga na alma... 
       E reconheço, emocionada, o meu tempo de agora, o tempo justo da colheita.
 

terça-feira, 8 de julho de 2014

A luz dos livros

                         As pessoas quando têm brilho não passam, deixam o seu rastro de luz em nós ou em algum lugar. Assim são os bons livros... Suas páginas nos extasiam como borboletas endoidecidas no espaço, subindo e bailando, impregnando de fantasia e cores os olhos de quem as observa. Sim, há pessoas que não passam, há livros que não passam, porque nos deixam sua beleza essencial. E a beleza essencial não é transitória, é raiz que nos finca na alma. Não tenho mais comigo muitas pessoas que amei e se foram, deixaram-me, contudo, a sua luz. Também não tenho ao meu lado, ao alcance da minha saudade, alguns livros que muito amei, ou porque os emprestei e não retornaram, alguns com a minha aquiescência, ou  porque os doei...
              Com o passar dos anos, à chegada da maturidade, vamos nos libertando dos apegos materiais ou afetivos, aqueles que nos escravizam, que nos fazem sentir donos e possuidor de algo ou de alguém.  O envolvimento emocional com os livros me parece até maior, pois somos tomados por um apego tríplice: material, mental e espiritual-afetivo e, por isso, bem mais difícil de nos desapegarmos. Similarmente, no entanto, a maturidade também nos ensina o despojamento, que devemos passar adiante e sempre, o condutor, a fonte daquilo que nos faz melhor, nos faz crescer. Fico imensuravelmente feliz, quando vejo livros que eram meus contribuindo para que alguém  possa abrir as portas de sua espiritualidade e conhecimento, da mesma forma como fez comigo um dia. O importante é o que assimilei, o que contribuiu para a minha formação como ser humano, e está dentro de mim feito raiz. Guardar os livros só para nós, apegar-nos a eles como a uma teia, é privar alguém de experimentar uma riqueza que pode, e deve, ser partilhada. 
               Que voem de nós os livros, que voem feito borboletas bailarinas e pousem em  infinitas veredas sedentas do saber, e ali finquem também os seus ensinamentos, a sua luz, porque essa é para sempre!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Hábitos e manias

           Não sei quando começaram os meus hábitos, alguns penso que os conservo desde a tenra idade, outros, provavelmente, os tenha adquirido ao longo da vida. Hábitos são comportamentos parentes das manias e que, com o passar dos anos, arraigam-se em nós feito musgo à pedra. Num mergulho profundo e isento de mim, estou convicta de que adquiri mais hábitos do que manias, pois não contabilizei perdas ou afastamento de afetividades vitimadas por minhas manias, ao contrário, muito mais as tenho arrebanhado por meus hábitos.
Há aquelas manias  e hábitos que modificam tanto e a tal ponto o modo de viver de alguns, confrontados com o dito normal, que levam muitos aos consultórios psicológicos, para se livrar deles ou ter com eles uma convivência harmoniosa e, de preferência, não interfiram demasiadamente na vida de quem quer que seja. Nunca passei por nenhuma análise em consultórios psicológicos, longe de desdenhá-la, contudo, e muito mais por temer ouvir aquilo que pretensiosamente já soubesse ou ousasse supor.
 Algumas manias tornam-se tão incorporadas à personalidade, que nem sempre é possível se dar conta, muitas vezes, o alerta de amigos é imprescindível, assim como a aquiescência em confirmá-las e a coragem para superá-las.
 Embora com tanta similaridade, hábitos e manias podem tornar pessoas especialmente interessantes ou exaustivamente chatas. Estão excluídas do rol dos chatos pessoas que têm o hábito de ligar para saber se você está bem, se trancou a porta, antes dormir, se precisa de alguma coisa, que enviam flores ou  cartão no seu aniversário, que trazem, na ponta da língua, uma salvadora receita caseira para curar-lhe daquela enxaqueca que azeda e entorpece o seu dia, e jamais perguntam se a causa é afetiva, aflitiva ou por excesso de trabalho, simplesmente porque são pessoas que possuem o requintado hábito de serem delicadas, discretas e cuidadosas. Não diria o mesmo àquelas com mania de perguntar tudo, desde o nome do perfume que está usando, até para onde você pretende viajar nas férias, e, se já tiver retornado, o endereço do hotel em que se hospedou, com a desculpa de querer apenas uma referência, caso escolha o mesmo lugar para passear.
 O certo é que se temos amigos com manias que nos dificultam relacionarmos com eles, mas os amamos, apesar de tudo, há que se ter paciência e tolerância; uma boa pitada de bom humor também ajuda, consideravelmente.
 Concluo que a diferença entre hábitos e manias não se atém, exclusivamente, à semântica, mas, e sobretudo, à essência dos detalhes...

sábado, 16 de novembro de 2013

Saudade lilás (crônica)

          Todo sentimento tem uma cor relacionada com o efeito que repercute em cada pessoa. Daí, concluo que a saudade é lilás, aquele tom entre o rosa e o azul, que faz ninho por trás das auroras no amanhecer de um dia morno e preguiçoso... E brilha dentro de nós como a malacacheta, instigada pelo reflexo do sol.
        Falo daquela saudade que não dói sentir, que combina com licor de amoras e perfume de jasmim. Que nos tira para dançar ao som de Straus, Mozart ou Beethoven, depois, conduz-nos felizes a um cantinho, entre almofadões macios ou em rede que nos embala para muito além das horas comuns e de um tempo comum... 
         Saudade lilás não tem pressa nem produz ansiedade.
          Saudade lilás nos traz de volta a maciez do beijo consentido e do abraço compartilhado, que sorrateiros se instalam, bem o alcance, onde é possível revivê-los intensamente e no instante presente. 
           Saudade lilás leva a gente para um passeio à beira-mar, nos faz falar sozinhos, rir sozinhos sem motivo, feito criança, sem nos importarmos com quem nos observe e nos julgue como alguém  excessivamente distraído ou louco.
           Porque saudade lilás é exatamente a mistura de distração e loucura, o que a faz indefinível para certas pessoas, disfarçada para outras e com segredos cúmplices com poucas...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Testamento afetivo (crônica)

                       
      
       Um dia, sei que deixarei esta vida... E procurei vivê-la leve, como quem passeia na praia, descontraída, colhendo conchinhas do mar, respirando um perfume que nunca soube de onde vem, perfeitamente feliz, sozinha, ou ao lado de gente que gosta de sorrir à toa também.
       Vivi como quem costura uma colcha de retalhos coloridos, em quadrados e losangos, formando um mosaico de todos os momentos bons e os não tão bons assim. Depois, transformei-os em um quadro raro e possível na minha fértil imaginação.
       Vivi sem assustar ninguém, ou com gestos descabidos ou decisões incompreensíveis. Reservei apenas algumas surpresas, todas boas de saber, todas boas de sentir. Aquelas que fariam a minha alma cantar, se alguém também as me reservasse. 
        Vivi como quem sabe que todo final de semana ditoso pode ser hoje, e o ano inteiro...
        Não fiz numerosa poupança, não guardei dinheiro em nenhum grande cofre, não deixarei, portanto, nenhuma cobiçada fortuna. Estou absolutamente certa, por conta disso, de que ninguém há de torcer para que eu morra, logo à primeira pneumonia que me acometer. 
        Deixo meus livros, não são muitos, doei alguns, emprestei outros, que nunca mais retornaram. E agonizamos ambos de saudade vida afora. Os que sobreviveram, que fiquem em mãos que os acariciem, que os preservem de maus humores e ranzinzices, e que jamais sirvam apenas de peso para um amontoado de papel. Que os tome quem os ame somente e, mais ainda, que os leia além da capa. Torço para que, lendo-os, entenda-os, a ponto de os querer ler de novo, uma e outras vezes... Ia me causar profunda dor se fossem transformados em meros enfeites na estante de alguém.
          Carro, roupas e quase nenhuma joia, não os incluí na minha lista de objetos especiais, por não terem para mim nenhum referencial afetivo. Portanto, além dos livros, uma caneta dourada, que ganhei no sorteio com a turma, na minha formatura de jornalista. Tem o meu nome e uma data, não sei se poderia interessar a alguém. É delicada, bonita e, desafiando o tempo, ainda dourada, como nova. Uma caneca com um pires, que comprei para ajudar em uma campanha de proteção aos animais, trazem o desenho de um gatinho na caneca e o de um cãozinho, no pires. Sugiro que fique com eles somente a pessoa que se identifica com os animais, do  contrário, seria muito desconfortável olhá-los todos os dias, no café da manhã ou no chá da tarde. Um oratório pequeno, de vidro e madeira, com alguns santos do meu fervor, a quem não dei muito trabalho, todavia, deles recebi proteção e companhia na minha fé. Quem os escolher, espero que tenha infinitas bênçãos e graças alcançadas.
      Por fim, um álbum de fotos, atuais e antigas, em lugares comuns, mas significativos, repletos de detalhes que só eu sei nominar e traduzir. E um desses álbuns está a foto de uma árvore de tronco robusto, generosamente frondosa, dividindo ao meio parte de uma rua. Suas raízes teimosas, entediadas da escuridão funda da terra, preferiram o acolhimento da luz e rasgaram-se expostas e nuas, desafiando a dureza das pedras.
        Há uma sintonia velada entre nós...  

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Gente que é arte (crônica)


             A vida me mostrou que amigos são como um cordão invisível  e terno, que nos enlaça e puxa em direções ora oblíquas ora convergentes, aqui e ali, abrindo e fechando elos afetivos.                
              Eu não conhecia Lília, a anfitriã. Fui levada a sua casa por uma amiga, onde encontraríamos outros amigos. Amigos que se reúnem para aconchegar a amizade num copo de suco ou em uma xícara de chá. Só que eu não supunha ser um encontro com a arte, a arte mais simples e delicada, sem sofisticação, sem rebuscamento, só alma. Com gente que é a própria arte. 
              Que bom constatar que as pessoas que imaginamos únicas, acabam transcendendo o imaginário.
               Uma borboleta, multicolorida e quase viva, de tão real, colada à porta de entrada, não estaria ali por acaso. Mãos especiais a teriam designado guardiã de algum tesouro, que não se descreve com palavras.

            Lília, uma senhora de olhos brilhantes e sorriso afável, fez-me sentir como se eu costumeiramente frequentasse aquela casa. Generosa, de leveza nos gestos, feito gente que transforma naturalmente em arte tudo o que toca, mas não se dá conta, talvez porque Deus escolhe os seus artistas, mas não revela a eles sua escolha, delegando essa tarefa à observação sensível de alguns e, quem sabe, por merecimento, absorvê-la.
      A viuvez não a fizera solitária, ao contrário, deixara-se acompanhar pela pintura, que coloria os seus dias em movimentação e prazer, tornando sua companheira fiel, "mas exigente", ponderou, com um sorriso brincalhão. "E, muitas vezes, impaciente", emendou, num tom simulando crítica.
         Havia quadros, pintados por ela, distribuídos pelas paredes dos diversos ambientes da casa: antessala, sala e quartos. Senti-me imediatamente abraçada e acolhida pela arte. Com voz mansa, quase inaudível, fez questão de falar sobre cada um dos quadros: a motivação e o tempo que levou para pintá-los. Ali, sob as paisagens de campo, montanha e mar, a arte também registrava um pedacinho de sua história de vida.
     A disposição geométrica dos pratos, copos e talheres era pura arte, espontânea e despojada. Os sucos, em jarras transparentes, tinham cores indefinidas, que também brincavam de arte, bem diante dos meus olhos. 
     Lília pegou o meu copo, delicadamente, colocou nele um pouco de suco e pediu-me para experimentar e adivinhar o sabor. Num segundo, voltei à minha infância, quando, sentada no chão, em círculo, ao lado de outras crianças, brincávamos de adivinhação. 
      O suco impregnou a minha boca de um sabor intraduzível. Bebi um gole e outro mais. Sacudi a cabeça pedindo aos céus para ajudar-me a traduzir o sabor daquele néctar dos deuses, mas em vão. O sorriso confortante e brincalhão de Lília acudiu-me prontamente:
       - É uma brincadeira que faço com os meus convidados. Os sucos são feitos com mistura de frutas exóticas, o sabor fica propositalmente indefinível.
      Senti-me apanhada na doce brincadeira e sorri maravilhada. Todos sorriram contagiados e o lanche transcorreu em meio à afetividade e arte, trocando de lugar o tempo inteiro.
     Arte que esculpe sorriso aberto em mãos naturalmente mágicas, arte que a gente absorve e cataloga no âmago, porque é onde guardamos o abissal divino.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013


Não existe o texto perfeito, mas a perfeita sintonia...

  
Solange Castro Medina