segunda-feira, 1 de junho de 2015

Retomando a vida

  "O seu coração não é estrada para passeio de muitos. O seu coração é lugar que
  só fica quem faz por merecer".   Charlie Chaplin
                                                                                                 

            Como avaliar, de imediato, o merecimento de quem abrigamos no coração, se o ser humano, não raro, é dado a encantamentos, a arroubos sentimentais? Basta que nos dirija uma frase bonita, um olhar melodioso que vasculha nossos abissais, um gesto que encanta e sensibiliza. Como não enfurnar essa pessoa nos confins do nosso coração, com a velocidade do raio? Como não sequestrá-la com os braços da alma, com a nossa avidez de doçura? Como não detê-la ao nosso redor vazio, num mundo onde pessoas delicadas estão sumidas e banidas? Pessoas duras com elas mesmas e com o outro, que podem até ter sido mansas e benignas um dia, mas que a aridez das transformações as contagiou? Pessoas com o amargor e o pessimismo a norteá-las por todos os seus pontos cardeais e que vêm tropeçar em nós, por tantas vezes, tomando atalho em nossos caminhos e, mesmo sem nenhuma referência e credencial, vão arrombando os nossos corações. Até nos apercebermos, quanto estrago nos terão causado, e com a nossa plácida aquiescência... Se antes nos dispuséssemos a avaliar cada pessoa que abrigamos no coração, se a submetêssemos às nossas precauções sob um detector de mentiras afetivas que as impedisse de causar-nos as feridas profundas e demoradas... Mas o coração da gente é, às vezes, meio açambarcador, vai acolhendo, acolhendo, só muito mais tarde, já com as batidas trêmulas e penosas, verga-se à triagem tardia...
           Quem é sensível demais tem o coração de portas escancaradas que, tal como pote de mel, atrai abelhinhas inofensivas e borboletas coloridas, mas também marimbondos implacáveis. Quem tem bom coração é mesmo assim, por ele entra um, entra outro e, sem se dar conta, entra gente que não merece.
           Promovermos a varredura de pessoas que se instalaram dentro de nós feito erva-daninha, que dia a dia nos envelhecem e arruínam, até pode doer-nos um pouco, porque à dor também nos acostumamos, mas é necessário, para que retomemos a vida. Aí, recorremos novamente à nossa autoestima, ao nosso amor-próprio, para ajudar-nos a "pegar na vassoura".

             
        

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