quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Medo, o protagonista (crônica)

                                 
  
        O medo nos rouba o calor humano da convivência com as pessoas, nos faz julgadores precipitados e esmorece a nossa ousadia. Ao telefone -  tantos são os golpes que assolam esse meio de comunicação tão essencial em nossas vidas- , nos tornamos lacônicos, questionadores, até mesmo rudes e antipáticos. 
      O medo pode nos fazer trocar o aconchego de casas amplas, com  passarinhos nos jardins e vizinhos com quem convivemos, como se fossem membros da nossa família - que sempre têm um chá caseiro e milagroso que nos curam de qualquer mal, um arroz quentinho ou um colchonete providencial para nos acudir quando recebemos uma vista inesperada - por apartamentos em condomínios supervigiados por câmeras, alarmes e sensores de presença, que nos protegem, mas nos roubam a privacidade, o acolhimento e a espontaneidade,  por vizinhos de quem  nunca procuramos saber o nome, pouco nos interessamos pelo seu bem-estar e com quem nos limitamos a um bom-dia, no máximo civilizado.
        Não bastasse nos isolarmos por medo, ainda o transferimos para os nossos filhos, que se encarregarão de o aperfeiçoar e multiplicar, como uma herança maldita.
        É o medo que hoje ecoa em verso e prosa,  protagonista nas mídias e sucesso nas  telas de cinema. Escreve-se para quem tem medo, porque o mundo transpira e respira medo. Ele tem produzido poetas e escritores urbanos de visões e inspirações urbanas, que registram viagens e paisagem verticais, como se observássemos fotos de revistas de turismo. Poetas sem êxtase e escritores prosaicos, que mais se assemelham a psicólogos a nos oferecer suas mensagens de autoajuda. Nos seus escritos, falta chuva no telhado, faltam terra molhada e flores cultivadas em canteiros nas janelas, faltam personagens de amores contidos, sorrisos furtivos e  olhares intraduzíveis, resguardando sentimentos antigos, falta, enfim, a poesia,  a antítese do medo, a sua incompatibilidade.
          O medo sugou a poesia na maioria das almas e dos corações, usurpou a delicadeza, a brandura, nos tem confinado, isolado e, a cada dia, nos faz prisioneiros em nossas próprias casas e reféns dentro de nós mesmos...

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