sexta-feira, 14 de junho de 2013

Excesso de liberdade (crônica)

                                              
    Liberdade. Já lutou-se tanto por ela. Quantas vidas confrontadas e ceifadas em seu nome, quantos heróis mortos por empunharem suas lanças e espadas em batalhas que escreveram histórias. Todavia, eis que ando profundamente assustada com o excesso de liberdade no mundo de hoje. Liberdade que já não se conquista. É oferecida e consentida, antes mesmo de os jovens chegarem à adolescência. Porque há um apelo velado dos meios de comunicação que chegam avassaladores às escolas e a elas também lhes ditam O RUMO DA LIBERDADE. Ou se dá liberdade ou se perde a harmonia, e esta se vê  em conflito nos lares, entre o ser e não ser shakespeariano na orientação dos filhos.
   As crianças já não brincam  nem os jovens namoram nos românticos e ingênuos bailinhos, não possuem estantes, porque não leem livros, que hoje são facilmente resumidos pelo computador que lhes dão um mundo ilimitado de liberdade via internet, onde copiam pesquisas prontas, fazem amizade insípida e namoram virtual e perigosamente.
    Transformaram-se em crianças-zumbis: olhos fundos, ou muito magras ou quase obesas, resultado de noites maldormidas, consumidas pelo necessário e maldito computador. Pobres pais. Impossível competir com esse gigante maravilhoso e a um só tempo traiçoeiro, porque o demônio nem sempre é feio. Ele tem o poder de se vestir de galã.
    Certo dia, ouvi da filhinha de onze anos de uma amiga minha, reclamando com ela: "Mãe, nenhuma coleguinha quer brincar comigo, estão todas no computador. Será que nasci em época errada?"
     Lembro-me que na minha adolescência, e isso já vai mais da metade de um século, eu também me sentia estranha no meu tempo e no mundo. Gostava de ficar em casa, lendo e escrevendo, enquanto a maioria preferia sair para dançar. A diferença era que tínhamos uma liberdade conquistada, ao contrário desta de hoje, exposta como num self-service segredando: "Sirva-se". Certamente há um ônus nessa exposição a curto prazo e se repercutirá nas costas dos pais e muito mais na vida caleidoscópica dos nossos jovens.
     Também acho que nasci numa época errada, mas a de hoje causa-me estranheza, quando não me deixa perplexa. Contudo descobri, vivendo, que há sempre algum propósito para a lucidez que se levanta. Daí que a responsabilidade passa a ser minha de operar mudanças necessárias que me confortem, com as quais eu me sintonize, senão, viver seria por demais enfadonho. Elas me impedirão de escorregar nesse funil, onde tantos se espremem para não ficarem diferentes, só para fingir que entendem e aceitam o sistema.
      A responsabilidade passa a ser minha de fazer ouvir o meu pequeno grito, mesmo que eu me descubra a heroína às avessas da liberdade.



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