sexta-feira, 14 de junho de 2013

Despedida na confeitaria (crônica)


     Como supor um fim de namoro na confeitaria? Combinar doces com amargor, desolados e confeiteiros misturados?
    Quanta ironia no cenário escolhido. Quanta estranheza nos olhos que se olham sem ser ver por inteiro. Quanta desavença a um tempo estornada e exposta, abraçada aos que partem lado a lado e distantes.

    No fundo, não há consolo, quando se vislumbram o irremediável e o óbvio, desabando para o inexorável. Ainda queria se agarrar a uma  ilusória  possibilidade,  mas migalhas não alimentam, só fragilizam e esgotam.  E tudo o que  inventasse agora, para  detê-los, nada mais seria do que o suplício adiado.
       Quisera chorar, ao supor que chorar a  confortasse. Mas a lágrima não veio para se despedir, estagnou implodida na garganta, observando todos os seus estragos por dentro. E quando ela não escorre, os lábios se vergam feito riso, mas é só o trejeito da dor, reflexo da alma em trapos.
   Engasgada, meio viva,  meio morta, suas mãos abandonam a mesa, já sem guardanapos. Leva-os todos no fundo da bolsa, amassados e com alguns poemas no meio, todos ininteligíveis, inacabados e desconexos, porque a inspiração também não veio para se despedir, só o vazio infértil de rompimento e perda.
     Levantam-se, quase ao mesmo instante. Um leve roçar de ombros, descuidadamente, ao acaso, entre passos tropeçados.  Lá fora,  a chuva  chora por ela, como se zombasse da sua incapacidade de chorar. E o vento, desalinhando seus cabelos, teima em esconder a palidez que a revela.
       Dispersam-se, sob um silêncio que faz doer suas  entranhas. Nenhuma lágrima, nenhum argumento, nenhum apelo. Melhor assim - pensou. Não se retém o que na verdade nunca se teve.
     Sem beijos, sem risos furtivos, sem clamores contidos, sem olhares sorrateiros, e sem vontade de ir embora.

     A despedida ficou do outro lado da rua...

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