segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Para caminhar ao meu lado (crônica)


      

       Para caminhar ao meu lado, é preciso ter asas nas pernas e no pensamento, porque sou meio gente, meio passarinho... 
        Para caminhar ao meu lado, tem que ser alguém atencioso com os velhos, que goste de criança, de animais e respeite a natureza.

       Tem que ter capacidade de captar a sutileza do que ficou propositalmente vago, saber traduzir o silêncio dos que calam e entender o silêncio dos que revelam. É preciso que conheça a nascente da alegria, porque a da tristeza é bem mais fácil de encontrar, e trazer nos lábios o sorriso fácil das pessoas únicas.
        Que não fuja os olhos dos meus, quando for só isso o que eu precisar. Porque, às vezes, toda cumplicidade se resume no olhar...
         Pode ser teimoso, às vezes até irascivo, mas fácil de ser convencido com um beijo e um afago...

           Tem que ter mãos receptivas e braços que acolhem, acima de tudo,  a grandeza de perdoar e a humildade de pedir perdão. E que a fidelidade lhe seja prazerosa.
           Para caminhar ao meu lado, tem que ser alguém que se indigne com a falta de escrúpulos, com os desmandos e com a conivência perniciosa. 
            Relevarei o insone, o sonâmbulo e os tímidos, pois reconheço uma certa sedução na timidez. É imprescindível, todavia, que seja romântico. 
             Para caminhar ao meu lado, tem que ter voz branda que acalenta, mas firme quando tiver de dar alento. Tem que ser solidário, generoso, ter fé, e que sua religião seja a própria conduta.
             Que não me canse, não me cobre, não me acue.
             Para caminhar ao meu lado tem que ter mãos receptivas aos afagos e ombros ao alcance, para confortarem percalços e perdas. Que traga alento para esperanças perdidas, assim como bálsamos para confianças traídas e, antes de ir embora, tenha sutileza e finja não perceber lágrimas maldisfarçadas, quando se deveria sorrir. Sobretudo, entenda quem é pouco acostumado à felicidade, mas que ainda a exercita, porque sabe que ser feliz é lento, requer persistência, paciência e humildade, é um aprendizado feito de começos e recomeços infinitos...
             Para caminhar ao meu lado, tem que ser um contador de histórias nato, aquele que sempre encontra um final feliz para todas elas, mesmo que lhe escape uma ou outra lágrima.
             Para caminhar ao meu lado, deve ser alguém com ouvido apurado para a música, que saiba apreciar a arte, não necessariamente um artista. Pode até não ter escrito um conto, uma crônica, um poema, sequer um verso, mas que traga a poesia no olhar e tenha alma de poeta.
                Em troca, hei de recompensá-lo com a receptividade grata e festiva dos que esperaram ansiosos a vida inteira... 
















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