sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Hora da Semeadura (crônica)


As pessoas não entram em nossas vidas casualmente, bem sei... Mas há aquelas com quem insistimos tanto para que se demorem um pouco mais, pelo nosso apego com elas, por todo o sentimento desprendido por elas que, talvez, com isso, acabamos por interferir no tempo em que na verdade teriam ao nosso lado, sem nos apercebermos que deter alguém não significa que o seu tempo conosco já não tenha findado. Chegado ao limite.
Tudo é cíclico, a forma da natureza, as plantas, as frutas, os alimentos, e  por que não os sentimentos...
Tudo obedece ao tempo de plantar e ao tempo de colher. Se plantarmos bem, a boa colheita não estará perdida... Mas como escolher o que plantarmos? E o que verdadeiramente pretendemos colher? Há que se atentar, na hora da semeadura, para a terra onde se deitarem as sementes...  Porque umas não vicejam em terras sem adubo, outras lhes bastam algumas regadas e, em qualquer solo, se reproduzirão; desafiam o sol causticante e as tempestades, com seu  vento devastador.
Então, tudo está nas mãos do semeador, na intenção que ele traz no coração, visando à sua colheita?
Possivelmente, há que ter o semeador tal envolvimento com a sua semente, que na hora da colheita ambos não se estranharão. Hão de se reconhecer em harmonia fértil: a mão boa colhendo a boa fruta.
Assim são as pessoas e os seus sentimentos. Por que quero plantar uma semente na minha terra, dedicar tanto tempo no cultivo e no regado dessa semente, se bem sei que o fruto que produz não sacia a minha fome, é estranho ao meu paladar? O que farei com esse fruto? Como conviverei com ele? Que espaço dar a ele no silo da minha vida? No abrigo do meu coração?
 E por que tirar da semente que escolhi, talvez embevecida com a visão do seu fruto, a chance de ser semeada por outras mãos que podem saborear melhor as suas delícias? Por que insistir com a semente que há de me angustiar e, inexoravelmente, me matar de fome?
Então, eu me pergunto: o que pretendo da semente que escolhi e persisto na minha semeadura, se ela revira-se sobre a terra, inquieta-se ante a minha regada e se demora a frutificar sob os cuidados que lhe dou? Terá sido culpa da inábil semeadora? Ou, quem sabe, ocorreu o arrependimento da semente...

 

Um comentário:

  1. Essa vale bastante reflexão e porque não uma resposta?
    Um abraço à autora tão sensível.

    ResponderExcluir